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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um mineiro muito carioca

Geórgia Pereira, Acadêmica de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina - UEL.

Mineiro, bastante reservado como muitos de sua terra, e avesso à exposição pública, Rubem Fonseca, 81 anos, é um dos importantes nomes que compõem a produção literária no Brasil. Ele construiu ao longo de sua carreira, romances e contos que lhe caracterizam pela abordagem de temas densos, com linguagem sintética e ágil.

O autor está inserido na esfera das produções contemporâneas, que datam da década de 60. O marco de sua produção aconteceu com o livro de contos Feliz Ano Novo (1975), alvo de críticas e motivo de censura. Desde então, Fonseca apresentou estilo conciso e direto, imprimindo em seus textos, temáticas policiais e violentas, com assassinos, prostitutas e amantes.

Além do tom nitidamente policialesco, em que há geralmente um crime ou um mistério a ser desvendado, seus textos podem ser vistos como uma paródia do gênero policial tradicional, visto que os crimes atuam apenas como um disfarce de suas críticas a uma sociedade opressora do indivíduo.

Romancista e contista, Rubem imprime em suas obras um ritmo intenso na percepção dos acontecimentos, mas deixa a cargo de quem lê, a completude e a interpretação do enredo. Traz uma narrativa “curta e grossa” repleta de marcas de aspereza, retratando a realidade do subúrbio carioca. Sua literatura é crua, desnuda a ação humana sem nenhum pudor.

Mineiro de Juiz de Fora, José Rubem Fonseca nasceu no dia 11 de maio de 1975. Aos 8 anos foi para o Rio de Janeiro onde estudou Direito na antiga Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. Depois de formado, iniciou sua carreira na polícia carioca, como comissário do 16º distrito. De acordo com alguns relatos, Fonseca se tornou policial pelos mesmos motivos que o comissário Mattos cita em "Agosto", romance do autor: "No meu caso, fora simplesmente a incapacidade de arranjar um emprego melhor. Depois de três anos advogando para criminosos pobres, sem ganhar dinheiro para pagar o aluguel do escritório, sem dinheiro para casar, surgira aquela oportunidade de trabalhar vinte e quatro horas e ter setenta e duas horas de folga".

Rubem Fonseca teve atuação de destaque no grupamento policial do Rio de Janeiro entre os anos de 1952 e 58, ficando mais tempo no cargo de policial de gabinete, responsável pelas relações públicas do setor. Muitas das experiências vividas durante este período estão registradas na obra “Aluno brilhante da Escola de Polícia”. Em 1953, Fonseca foi selecionado para fazer cursos de aperfeiçoamento nos Estados Unidos, local onde estudou administração na cidade de Nova York e posteriormente, comunicação em Boston. O mineiro deixou a polícia em 1958, quando foi exonerado do cargo e ingressou na empresa Light, atuando ali durante a década de 60. Com a saída da vida dos negócios, seu novo destino foi a literatura.

Uma das novas correntes inauguradas por Fonseca foi a que o crítico literário Alfredo Bosi classificou como “brutalista”. Bosi defende que não é uma questão de estilo, mas sim o retrato da sociedade repressora da época, já que tal significado foi reconhecido durante a ditadura militar brasileira. Com o término da ditadura, Fonseca conservou essa característica para fazer o retrato mundano da violência na sociedade carioca.

Já Antonio Candido faz uso do termo “realismo feroz” na tentativa de mostrar o traço marcante no trato com o texto e com os temas retratados nas suas produções. Escrever sobre as angústias de uma sociedade essencialmente urbana – e ser identificado por essa característica – é uma opção literária feita pelo escritor

As obras de destaque são seus livros de contos como Os primeiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia MacCartney (1967), Feliz ano novo (1975) e O cobrador (1979). Dentre os romances, sobressaem O caso Morel (1973), A grande arte (1983), Bufo e Spallanzani (1986) e Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988). Uma de suas últimas obras é intitulada “Ela e outras mulheres” que reúne 27 contos, todos com nomes próprios femininos, organizados em ordem alfabética. Tal obra foi vencedora do Prêmio Academia Brasileira de Ficção, Romance, Teatro e Conto em 2007. Além da produção de contos e romances, o autor também contribui para a produção cinematográfica, produzindo roteiros para filmes como “O Homem do ano” dirigido por José Henrique Fonseca, filho do autor, “Bufo & Spallanzani” e Relatório de um Homem Casado”, ambos dirigidos por Flávio Tambelini e “A Grande Arte”, dirigido por Walter Salles Jr.

Mais do que dialogar com os leitores sobre temas que incomodam, a escrita fonsequiana coloca o ser humano no centro de todas as coisas, revelando a complexidade de uma existência quase sempre sem sentido.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

“Marília de Dirceu”, Tomás Antonio Gonzaga e o Arcadismo

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

O Arcadismo, escola literária contemporânea ao movimento intelectual iluminista, veio em oposição ao Barroco decadente, no século XVIII. Nesse cânone são retomados os ideais clássicos, originando a expressão Neoclassicismo, muitas vezes tomada como sinônimo de Arcadismo.

Segundo uma lenda grega, a Arcádia era uma região rural, dominada pelo deus Pan, onde pastores e pastoras levavam suas ovelhas e se divertiam cantando, fazendo poesia e amando-se à natureza. Assim, a expressão ganhou tom de "lugar ideal" durante o Renascimento, e no século XVIII, passou a designar associações de poetas, que se reuniam a fim de propagar os ideais neoclássicos e combater o Barroco. Tanto combatiam que a Arcádia Lusitana tinha como lema "Inutilia Truncat" - "corta o inútil”. As várias expressões em latim refletem as características das obras árcades.

A obra árcade “Marília de Dirceu”, do poeta Tomás Antonio Gonzaga, constitui-se como emblema do cânone árcade, pois incorpora todas as características deste. Ela pode ser encontrada integral e gratuitamente no site da biblioteca virtual da Universidade de São Paulo http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/literatura e é solicitada pelo vestibular da Universidade Estadual de Maringá.

Gonzaga nasceu na cidade do Porto, em Portugal, em agosto de 1744 e faleceu em fevereiro de 1810, na Ilha de Moçambique onde cumpriu pena de degredo. Depois de formado em Direito em seu país natal exerceu alguns cargos de natureza jurídica e em 1782 é indicado para ocupar o cargo de Ouvidor Geral na comarca de Vila Rica (Ouro Preto), na Capitania de Minas Gerais.

O poeta, já com quase quarenta anos de idade, apaixonou-se por uma adolescente de dezessete – Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. A família da moça fazia forte oposição ao namoro. E quando tal oposição já estava praticamente vencida por Gonzaga, ele foi preso e enviado a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, acusado de participação na Inconfidência Mineira. Passou os últimos dezessete anos de sua vida no degredo, em Moçambique, casado com a filha de um comerciante de escravos, Juliana de Sousa Mascarenhas, com quem teve um casal de filhos.

Mesmo nunca tendo se casado com Maria Dorotéia, Tomás fez desse romance o primeiro mito amoroso de nossa literatura e criou uma de nossas mais belas obras líricas, Marília de Dirceu. Nela o pastor Dirceu confessa seu amor à pastora Marília, em evidente projeção do drama vivido por ele, Tomás, e por Maria Dorotéia. O livro é dividido em três partes, cada uma subdividida em liras (várias estrofes). Escrito em épocas diferentes, sendo a primeira parte escrita antes do tempo de aprisionamento de Gonzaga em 1792, a segunda durante o tempo de prisão em 1799, e a terceira, considerada por alguns ilegítima, não tem data específica. Alguns autores creditam-na a 1812, a partir da Impressão Régia.

Na literatura árcade o poeta tem a preocupação constante em passar a busca pela clareza, simplicidade e equilíbrio. Para isso usa como pano de fundo a natureza e o bucólico (pastoril), ambos responsáveis pelo resgate dos sentimentos corroídos pelo progresso. “Marília de Dirceu” reflete o “locus amoenus”, isto é, o lugar calmo, ameno, longe do burburinho citadino, como sugere o trecho seguinte: “Acaso são estes / Os sítios formosos. / Aonde passava / Os anos gostosos? / São estes os prados, / Aonde brincava, / Enquanto passava / O gordo rebanho, / Que Alceu me deixou? / São estes os sítios? / São estes; mas eu / O mesmo não sou. / Marília, tu chamas? Espera, que eu vou.”

Nos versos “Os pastores, que habitam este monte, / respeitam o poder do meu cajado” eu-lírico mostra poder diante dos demais habitantes da região e é respeitado como tal. Nesses, “Eu vi o meu semblante numa fonte, / Dos anos inda não está cortado”, percebe-se o retorno à mitologia grega com a lembrança do mito de Narciso, que se envaidecia ao ver-se refletido na água. O eu-lírico também se olha e se admira por ainda não possuir rugas apesar de ser mais velho que a jovem Marília.

A idealização da mulher para o eu-lírico é essencial, assim as sensações imediatas são muito importantes para a conquista, pois ela ficará fascinada com palavras que a valorizem. Ele usa um excesso de metáforas ao longo de toda a estrofe posterior comparando Marília com a luz divina, o sol, a rosa, a neve, o ouro, o balsamo, o tesouro. “Os teus olhos espalham luz divina, / A quem a luz do Sol em vão se atreve: / Papoula, ou rosa delicada, e fina, / Te cobre as faces, que são cor de neve. / Os teus cabelos são uns fios d’ouro; / Teu lindo corpo bálsamos vapora. / Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora, / Para glória de Amor igual tesouro. / Graças, Marília bela, / Graças à minha Estrela!”

A estrofe “Irás a divertir-te na floresta, / Sustentada, Marília, no meu braço; / Ali descansarei a quente sesta, / Dormindo um leve sono em teu regaço: / Enquanto a luta jogam os Pastores, / E emparelhados correm nas campinas, / Toucarei teus cabelos de boninas, / Nos troncos gravarei os teus louvores. / Graças, Marília bela, / Graças à minha Estrela!” reflete a “fugere urbem” – fuga do urbano/citadino, pois o eu lírico nos mostra que é possível ter uma vida simples no campo, longe de toda complicação da cidade. A amada terá uma vida plena, feliz, aconchegante e protegida de tudo, se ficar com ele e acalenta-lo, aí vemos o “locus amoenos”.

O crítico literário Antônio Candido dedica um capítulo de seu livro “Formação da Literatura Brasileira” volume I, à produção lírica de Gonzaga e começa seus comentários afirmando ser impossível compreender tal produção se não se tem em vista que ela surge da experiência pessoal do poeta, do fato de ele ter se apaixonado por Dorotéia, e conhecido Cláudio Manuel da Costa, o árcade que trouxe ninfas para os ribeirões das Minas Gerais. Gonzaga surge como um grande poeta (um dos maiores da literatura nacional, segundo Candido) justamente num período de crise afetiva e política, e graças à convivência com o inaugurador do Arcadismo Brasileiro.

Se Cláudio, poeta importante para Gonzaga, por ser um criador de parâmetros poéticos árcades, foi um artesão da palavra que trabalhou durante anos a fio, Gonzaga expande seu talento num intervalo de tempo preciso, de 1782 a 1792, em que vivia em conturbado momento político – Inconfidência Mineira, e a paixão por Maria Dorotéia. Fica a certeza de que a Literatura brasileira, para Antônio Candido, tal qual a conhecemos hoje, seria muito mais pobre e teria tomado outros rumos se Tomás Antônio Gonzaga tivesse resistido aos “efeitos de amor” pela bela e inesquecível Marília, ou não tivesse convivido com o fundador da Arcádia Ultramarina em Vila Rica, Cláudio Manuel da Costa.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"Senhora", de José de Alencar: reflexo do público leitor

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

Para melhor entendermos uma obra literária devemos contemplar o que o crítico literário Antonio Candido denomina “texto e contexto”; a estrutura da obra – seu texto – é tão importante quanto o momento em que foi escrita – contexto.

A fim de esboçar uma das várias possibilidades interpretativas para o romance Senhora, de José de Alencar, focalizaremos em primeiro momento sua contextualização histórica enfatizando a escola literária da qual faz parte e o que isto implica para o texto.

O Romantismo é considerado a arte da burguesia, a qual buscava uma arte que se identificasse e disseminasse novos padrões de expressão artística que estivessem ligados ao cotidiano aristocrata. A corrente trás consigo marcas profundas da influência capitalista e da ascensão burguesa, marcada pelo individualismo e liberalismo, referências advindas dos ideais da Revolução Burguesa.

A arte romântica retrata a efervescência social e política, esperança e paixão, luta e revolução do cotidiano burguês. Quebrando os padrões clássicos, a arte deveria ser expressão da emoção, intuição e inspiração, de vocabulário simples, de liberdade formal, cheia de descrições minuciosas com emprego constante de metáforas e comparações.

No século XVIII Jean Jacques Rousseau já havia anunciado o mito do retorno à natureza: “o homem é bom por natureza, a sociedade o corrompe”. O movimento do Sturm und Drang (tempestade e ímpeto), precursor do Romantismo, recebeu influências deste filósofo francês iluminista. Dele advém o culto à natureza e o sentimento em oposição à razão. A valorização do sentimento e da emoção leva o autor romântico a explorar o subjetivismo, aspecto que produz uma literatura de tom intimista e confessional. Mas o Romantismo não é apenas isso.

A instauração do Romantismo no Brasil coincidiu com o processo de afirmação de nossa Independência. Os ideais políticos, artísticos e sociais dessa corrente literária vinham ao encontro das aspirações de criar no país uma efetiva consciência nacional. Significativamente, porém, o primeiro “grito” mais consciente do movimento não veio do país, mas de brasileiros que estavam em Paris: “Tudo pelo Brasil, e para o Brasil”, dizia a epígrafe da Niterói – Revista Brasiliense (1836). Pouco antes, Gonçalves de Magalhães, um dos diretores dessa revista, havia publicado em Paris Suspiros Poéticos e Saudades, primeira coletânea de poemas românticos.

Tendo Magalhães como pioneiro, a poesia romântica foi assim dividida: primeira geração – Indianista ou Nacionalista (principais membros: Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias); segunda geração – Mal do século ou Ultra Romântico (Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela); e a terceira geração – Condoreira (Castro Alves e Sousândrade). Muitos equívocos se formam ao tomar o grande mestre do Romantismo brasileiro como membro da primeira geração. Sim! José de Alencar teve obras indianistas, mas cuidado!, suas obras são prosas indianistas e históricas e não poesia!

Alencar, grande consolidador da literatura brasileira, dividiu suas obras em três categorias: romances urbanos; romances regionalistas e a supracitada, romances históricos e indianistas. É da primeira categoria a obra em análise nesse artigo; Senhora, um retrato apurado da sociedade burguesa carioca do século XIX, conta os encontros e desencontros dos protagonistas, estes, reflexo dos próprios valores e costumes dos leitores.

Conhecido mais como Senhora (embora o nome completo seja Senhora: perfil de mulher), o romance alencariano narra em terceira pessoa a história de Aurélia Camargo, que vive com sua mãe viúva e um irmão num subúrbio do Rio de Janeiro. Aurélia apaixona-se por Fernando Seixas e este por ela, de modo que combinam casamento. Porém, Seixas, abandona-a por outra mulher a qual tem dote (quantia em dinheiro ou bens dado ao noivo) para o casamento. Uma herança inesperada beneficia Aurélia, propiciando-lhe a oportunidade de reconquistar o seu amor.

Aurélia tem 18 anos e não podendo gerir legalmente seus bens, tem um tutor que supostamente coordena suas finanças. É Lemos, seu tio e tutor, quem fica incumbido de propor a Seixas um casamento com uma moça de grande dote. Impõe, no entanto, que ele aceite a proposta sem conhecer a identidade da noiva. Seixas, endividado, aceita a oferta. Ao saber que a noiva é Aurélia, fica enormemente feliz. Mas, na noite de núpcias, Aurélia lhe revela a verdade sobre o casamento: era apenas uma vingança pelo abandono no passado; e mostrando-lhe o recibo, expulsa-o do quarto, conforme acompanhamos a seguir as falas transcritas da obra:

“- Aurélia! Que significa isto?

- Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos nos encarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu uma mulher traída; o senhor, um homem vendido”.

A partir daí, o relacionamento entre eles se torna hipócrita. Diante de estranhos, representam um casal perfeito. A sós, Aurélia o trata como sua propriedade e Seixas aceita-se como tal até que, um pouco pelo trabalho, um pouco por sorte, consegue juntar o dinheiro que deve a Aurélia, quitando, assim, sua dívida, recuperando seu orgulho e resgatando sua liberdade. Com a possibilidade da perda, Aurélia busca o perdão de Seixas pela atitude vingativa e os dois jogam-se nos braços um do outro, “vivendo felizes para sempre”.

O livro se divide em quatro partes: “O Preço” - narra os episódios em que Aurélia e Lemos conseguem desfazer o acordo de casamento entre Seixas e Adelaide e consegue negociá-lo para a protagonista; “Quitação”- fala-nos do passado de Aurélia justificando a fortuna herdada; “Posse” – a trajetória do casamento e a humilhação que Seixas sofre; “Resgate” – a redenção de Seixas e o happy end das personagens.

Alencar, através de Aurélia, faz uma dura crítica à sociedade da época: a moça declara ter comprado um marido por ser este um “traste indispensável às mulheres honestas”. Como mulher, Aurélia é independente, capaz de cuidar da própria vida e até mesmo de gerir sua fortuna. Mas se vê obrigada a atender às exigências sociais da época, a qual esperava que as moças se casassem a fim de assumir o perfil idealizado das moças honestas.

A crítica, porém, não apaga a história de amor. Pelo contrário, faz com que o sentimento surja cada vez mais valorizado como força redentora de todas as faltas. É o amor que sente por Aurélia que desencadeará a transformação em Seixas. Recuperada a dignidade e o caráter de Fernando, Aurélia está livre para declarar seu amor. Como seria de esperar, o romance termina com a reconciliação dos amantes. Essa reconciliação faz compreender que algo socialmente aceito, o casamento por interesse e conveniência, era moralmente condenável.

Para Antonio Candido o romance Senhora trata “da compra de um marido; e teremos dado um passo adiante se refletirmos que essa compra tem um sentido social simbólico, pois é ao mesmo tempo representação e desmascaramento de costumes vigentes na época, como o casamento por dinheiro. Ao inventar a situação crua do esposo que se vende em contrato, mediante pagamento estipulado, o romancista desnuda as raízes da relação, isto é, faz uma análise socialmente radical, reduzindo o casamento ao seu aspecto essencial de compra e venda”.

É assim que os romances de costume vão, a pretexto de contar histórias de amor, consolidando o projeto literário romântico de divulgar valores morais e criar um espelho no qual o público burguês enxergava-se refletido a sua própria face, provocando a consciência.


*Publicado originalmente no suplemento especial "Educação" do jornal "O Paraná", edição 385, página 11, 13/07/2007.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Literatura e formação profissional: possibilidades de humanização

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.


O que é literatura? Para que serve? Tais questões percorrem, corriqueiramente, salas de aula. Em uma sociedade que privilegia o capital, a humanização é algo secundário (quando muito!); e como a literatura caracteriza-se pela humanização, relega-se a ela minimizada – ou quase nula – importância. Por que, então, estudar e lecionar literatura?

Na obra Educação e emancipação Theodor Adorno explana que é necessário que toda discussão pedagógica leve em consideração a exigência primeira de que a injustificável monstruosidade de Auschwitz (campos de concentração localizados no sul da Polônia, utilizado por nazistas para exterminar seres humanos) não se repita, posto dirigir-se toda educação contra qualquer tipo de barbárie. No entanto, a consciência existente em relação a esta exigência é pouca, colaborando-se assim para a possibilidade de que o barbarismo se repita, consideremos a chacina no Instituto Politécnico da Virgínia ocorrida nessa semana, na qual um estudante provocou a morte de trinta e três pessoas, incluindo a sua.

Com a tendência de achar que nossos direitos, anseios, necessidades são mais urgentes que as do outro, esquecemos que o que é fundamental para nós é também indispensável ao próximo. Então, quando “evocamos bandeiras” em prol de uma formação íntegra – prevendo formação técnica e humana – será que lembramos que nosso aluno deve ter acesso ao mesmo?

É preciso ter consciência de que formação íntegra requer esforço e muito sofrimento. Se algumas pessoas não têm disposição para ter a completude dessa formação, pois necessita tempo, paciência e dedicação verdadeira, não deveriam ensinar, já que parte do conteúdo transmitido ficará guardado, inclusive temas e assuntos mal formulados. Há que se ter extremo cuidado ao formar opiniões, pois tornamo-nos responsáveis por uma formação intelectual, a qual poderá ser precária ou não.

Adorno afirma que a crise da formação cultural não se pode prender somente à pedagogia ou ser objeto exclusivo da sociologia, mas deve perpassar todas as esferas teóricas contemplando um debate sério. Para o teórico a formação cultural se converteu em uma semiformação socializada, na presença constante do espírito alienado que é símbolo de uma consciência que renunciou à autodeterminação, a qual se prende, de maneira obstinada, a elementos culturais aprovados. Apesar de toda ilustração e de toda informação que se difunde (e até mesmo com sua ajuda) a semiformação passou a ser a forma dominante da consciência atual, o que exige uma teoria abrangente.

Diante de tal panorama, de uma semiformação socializada a qual encobre por meio de ideologias a realidade precária da formação, o que fazer? Ao expor que “o conhecimento dos abusos sociais da semicultura confirma que não é possível mudar isoladamente o que é produzido e reproduzido por situações objetivas dadas que mantêm impotente a esfera da consciência” o sociólogo e filósofo frankfurtiano Theodor Adorno alerta-nos sobre a necessidade da coletividade. Não uma coletividade alienada, mas consciente e auto-reflexiva; e ele alerta: “a única possibilidade de sobrevivência que resta à cultura é a auto-reflexão crítica sobre a semiformação, em que necessariamente se converteu”. Assim, o resgate cultural é validado como fonte indispensável à formação plena, e a cultura engloba algo particularmente direcionada aos estudantes da Literatura. Mas o que é a Literatura? Para que serve?

Para o crítico literário Antonio Candido a Literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Ao sairmos da realidade (para saborear e vivenciar uma obra literária) e mergulharmos na ficção, temos a possibilidade de nos humanizar no sentido pleno definido pelo grande mestre: “[...] humanização - processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o sentido da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”

O papel humanizador da literatura impõe-nos uma indagação como lâmina cortante: como ser um bom professor de literatura diante da tarefa tão especial que é disseminar a humanização através dela? Ou devemos nos contentar com a simples função de indicadores de catálogos literários?

A educação ou a formação num sentido amplo, via de regra, não é mais o objetivo primeiro das instituições (atualmente não cabe mais a diferenciação entre universidades particulares e públicas – a maioria destas também se rendeu à lógica do mercado quando se mostra condescendente à formação medíocre) e o conhecimento submete-se às regras do capitalismo regido pelo neoliberalismo. O conhecimento, não é mais o sujeito da educação, este é o capital. O capitalismo reduz as políticas educacionais aos mecanismos econômicos; a economia às finanças; as finanças como jogo de mercado; e o mercado não é ditado pelo profissional que detém o conhecimento, ao contrário, ele é submetido a ele.

Os professores encontram muitas dificuldades pelo caminho, pois sua profissão lhes nega (além do retorno financeiro) a separação entre o trabalho objetivo e o plano pessoal, já que se objeto de trabalho é o ser humano, o que torna difícil esse tipo de afastamento. É necessário vencer tabus que cercam a formação do professor a fim de que se resgate o valor a verdadeira intenção de formar-se em licenciatura, que é a de possibilitar uma formação crítica e cultural aos alunos, destacando em especial o professor de Literatura.

Para responder as proposições iniciais – o que é e para que serve a Literatura – aproveito as sábias palavras de Marilena Chauí, filósofa, professora, leitora assídua de literatura, expondo a utilidade da filosofia, estendida aqui à Literatura: “Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes”. Privilegiando a utilidade destacada por Chauí, nos encontraremos, quinzenalmente, para discutir e falar sobre literatura.





Dicas de leitura:

  1. Educação após Auschwitz” e “Teoria da semicultura”, do autor Theodor Adorno, disponível no site http://planeta.clix.pt/adorno
  2. Convite à filosofia, Marilena Chauí, Editora Ática.
  3. “O direito à literatura”, Antonio Candido, capítulo do livro Direitos Humanos e Literatura de Antônio Carlos Ribeiro Fester.

*Publicado originalmente no suplemento especial "Educação" do jornal "O Paraná", edição 373, página 11, 20/04/2007.