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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O contexto histórico do Realismo literário

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.


Riqueza e miséria, crescimento desordenado dos centros urbanos, mudança radical nos meios de transporte e comunicação, grande avanços científicos. A Revolução Industrial transformou a face da Europa e trouxe consigo a urgência de uma nova estética, capaz de refletir esse processo. O Realismo nasce para responder a essa necessidade.


* Um paradoxo capitalista: desenvolvimento e miséria

Em 1800 a população da Europa chegava a 190 milhões de pessoas. Cem anos mais tarde, 460 milhões. Esses números traduzem uma evidente expansão de mercado e do trabalho. Como o declínio dos tipos tradicionais de lavoura e o uso das máquinas, os camponeses foram expulsos do interior e iam para as cidades em busca de emprego nas indústrias e fábricas. Mesmo os grandes centros, como Londres e Paris, não contavam com uma infra-estrutura adequada para absorver um crescimento populacional tão grande. Logo começaram a enfrentar problemas graves, como as epidemias. Nesse contexto de pobreza crescente, a mendicância e a prostituição tornaram-se subprodutos indesejáveis e degradantes da sociedade.


* Novas doutrinas sociais

As transformações sociais exigiam novas maneiras de explicar a organização de mundo capitalista. Diferentes doutrinas surgiram para responder a esse desafio. O inglês Adam Smith acreditava que, uma vez removidas todas as restrições ao comércio e ao capital, o desenvolvimento econômico aconteceria de modo natural. Para ele, um Estado liberalista tinha a função de preservar a lei, manter a ordem e defender a nação. A proposta do liberalismo da não-intervenção estatal da economia foi associada a uma expressão francesa, laissez-faire, que pode ser traduzida como “deixar passar”.

O economista Thomas Malthus afirmava que a pobreza era uma espécie de lei natural, ainda que cruel. Para ele, o descompasso entre o crescimento populacional e a produção de alimentos gerava um estado de pobreza permanente e inevitável. Com base nessa justificativa “científica”, alguns setores da sociedade passaram a condenar ações governamentais que tivessem como objetivo ajudar os pobres.

Karl Marx, interessado pelos processos históricos, procurou identificar, no estudo das relações de trabalho e de produção, fatores que determinavam as condições de vida de seus contemporâneos. Juntamente com Friedrich Engels, Marx lançou o “Manifesto Comunista”, em 1848, obra a qual afirmava que o sistema capitalista oprimia as pessoas e as condenava à miséria. Segundo eles, o capitalismo condenava o proletário à pobreza porque a classe de maior poder econômico – a burguesia – também controlava o Estado, valendo-se de seu poder político para explorar trabalhadores e aumentar suas propriedades. Acreditavam q a sociedade resultante da revolta do proletário seria mais igualitária. As pessoas, livres, trabalhariam em conjunto pelo bem comum. Era esse o sonho comunista que prometia uma vida mais digna e justa para todos os cidadãos.


Realismo: a sociedade no centro da obra literária

A realidade das máquinas, dos transportes e das novas teorias sociais torna inviável a visão de mundo romântica, que projetava o indivíduo e seus dramas sentimentais o centro do universo. Os artistas, como pessoas do seu tempo, procuraram um novo parâmetro de interpretação da realidade. Foi assim que a objetividade ocupou o lugar do subjetivismo romântico e a valorização desmedida da emoção foi abandonada. Em lugar de tratar dos dramas individuais o olhar realista focalizará a sociedade e os comportamentos coletivos. Como estética literária, o Realismo procura analisar a nova organização social e econômica, detectando suas causas e denunciando suas conseqüências.

Os objetivos que norteiam toda a literatura realista: produzir, por meio da arte, uma representação da realidade que permita condenar o que há de mau na sociedade. O desejo de pintar a anatomia do caráter humano se explica pela necessidade de compreender a origem de práticas e comportamentos sociais negativos. Para fazer essa análise, os escritores realistas adotarão a razão e a objetividade como lentes através das quais observam a realidade. O que revelam é uma burguesia hipócrita e fútil, que explora o proletariado enquanto professa o amor à justiça e à igualdade. Esse comportamento será denunciado em boa parte dos romances escritos nesse período.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

“Ao vencedor, as batatas!” - Quincas Borba

Clarice Pessoa, graduada em Letras, professora da rede pública.


Como diz o próprio autor, Machado de Assis, "o livro anda devagar" e "o meu estilo" é "como os ébrios (bêbados), guinam à direita e à esquerda, andam e param...". E é mais ou menos assim que anda a narrativa de Quincas Borba.

O romance realista, de 1891, conta a vida de Rubião, um pacato professor de Barbacena, que se torna rico da noite para o dia ao receber uma herança deixada pelo filósofo Quincas Borba, criador de uma filosofia chamada Humanitismo. Rubião é nomeado herdeiro universal do filósofo sob a condição de cuidar de seu cachorro, Quincas Borba, com o mesmo nome do dono.

Rubião passa a viver no luxo da Corte do Rio de Janeiro, num ambiente a que não estava acostumado e que muito o deslumbra. Torna-se amigo de um casal, Cristiano Palha e Sofia. Ele se apaixona por Sofia. O amor era tão grande que Rubião foi obrigado a assumi-lo perante o objeto de desejo. Sofia recusa seu amor, mesmo tendo lhe dado esperanças tempos atrás, e conta o fato para Cristiano. Apesar de sua indignação, o capitalista continua a relacionar-se com Rubião, pois queria obter os restos da fortuna que ainda existia.

Palha faz uma proposta empolgante a Rubião: investir seu dinheiro na área de exportação. Empolgado com a esperança de multiplicar seu dinheiro, Rubião acaba caindo na armadilha do casal, que lhe dizem que outro negociador de "fora" os passou para trás e ficou com o dinheiro do investimento.

O amor de Sofia, não correspondido, aos poucos começa a despertar a loucura em Rubião. Já muito afetado pela doença, e de volta à sua cidade natal, relembra parte de uma explicação que lhe foi dada por Quincas Borba, e que habitou muito sua mente nos primeiros momentos quando soube que herdara toda fortuna do citado filósofo, diz: "Ao vencedor, as batatas".

Retoma-se, então, o Humanitismo. Que teoria é essa? É uma visão irônica das filosofias as quais pregam que a humanidade feita de uma só essência. A teoria dos Humanitas nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo aparece o pensamento pessimista e absurdo. O homem não aparece como um ser maravilhoso e perfeito, mas cheio de falsidades, em que um cão pode ser mais amigo e fiel do que o ser humano. A seguir, trechos do capítulo V ilustrando a relação de Quincas Borba, o filósofo, com seu cão Quincas Borba:
“— Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda parte, existe também no cão, e este pode ser assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano... O cão ouvindo, correu a cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:
— Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo!”

O homem, para o Humanitismo, não significa nada; é falso, instável e fraco. Podemos notar isto nas personagens machadianas. Na luta pela sobrevivência quem vence é o mais forte, e não quem tem mais caráter. No trecho abaixo, do capítulo VI, a explicação da teoria:
“— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e irá à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

Depois da morte de Quincas Borba, Rubião sente-se dono das batatas. É um vencedor. As batatas, para ele, representavam riqueza, posição social. Não sabia ele que, na realidade, representavam, simplesmente, meras batatas. Não tinham valor algum. Seriam, apenas, o veículo de sua destruição. E ele que até então não entendera a exposição do filósofo, passa a compreender a fórmula:
“— Ao vencedor, as batatas!
Tão simples! Tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e notou que até há pouco foi, por assim dizer, um exterminado, um bolha; mas que ora não, era um vencedor. Não havia dúvida; as batatas fizeram-se para a tribo que elimina a outra para transpor a montanha e ir às batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacável, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:
— Ao vencedor, as batatas!” (Cap. XVIII)

A loucura de Rubião o levou à morte e foi comparada à mesma que causou o falecimento de Quincas Borba. Louco e explorado por várias pessoas, principalmente Palha e Sofia, Rubião morre na miséria e assim se exemplifica a tese do humanitismo.

A dica para download das obras completas de Machado de Assis é o site da biblioteca virtual do estudante brasileiro: http://www.bibvirt.futuro.usp.br

“Memórias de um Sargento de Milícias” – Romântico ou Realista?

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

Nascido no Rio de Janeiro em 1831, Manuel Antônio de Almeida teve existência breve, pois morre tragicamente em 1861, com apenas 30 anos de idade, vítima de um naufrágio na Baía de Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Formou-se em Medicina, mas nunca clinicou. Para manter os estudos, traduzia folhetins franceses, escrevia crônicas e críticas para o “Correio Mercantil”. Em 1858, Almeida foi nomeado diretor da Tipografia Nacional, ocasião em que teve oportunidade de auxiliar o então tipógrafo Joaquim Maria Machado de Assis, mais pobre e desvalido que ele.

“Memórias de um Sargento de Milícias”, única obra de Almeida, foi publicada, sob anonimato, em folhetins (publicação semanal), no suplemento dominical “A Pacotilha” do jornal em que trabalhava, entre 1852 e 1853. Pouco tempo depois, o romance foi publicado em forma de livro, em dois volumes, respectivamente em 1854 e 1855, assinada com o pseudônimo “Um Brasileiro”.

O livro de Manuel Antônio inova pela linguagem realista e satírica, que não correspondia muito ao gosto da época, motivo pelo qual não teve muita aceitação e parecia mesmo que estava fadado ao esquecimento, entretanto, o tempo encarregou-se de valorizá-lo e, se não chegou ao sucesso estrondoso, continua vivo pelos anos afora.

A obra é dividida em duas partes: a primeira com vinte e três capítulos e a segunda com vinte e cinco. Inicia-se com a frase “Era no tempo do rei”, que situa a narrativa no século XIX, no Rio de Janeiro. Conta a vinda de Leonardo-Pataca para o Brasil. Ainda no navio, namora com a conterrânea Maria da Hortaliça. Daí resultou a união e “sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem deixar o peito”.

Passado alguns anos de convivência Leonardo-Pataca descobre que Maria da Hortaliça o traía com vários homens, dá-lhe uma surra e ela foge com um capitão de navio para Portugal. O filho Leonardo é abandonado pelos pais e o Compadre barbeiro e a Comadre parteira – padrinhos do menino – se encarregam dele.

Na primeira parte do livro o leitor acompanha o crescimento do herói; a infância rica em travessuras; a adolescência com as primeiras ilusões amorosas e as aventuras movimentadas. Essa parte encerra-se com a declaração de amor, toda desajeitada, depois de muitas tentativas e retrocessos, de Leonardo à Luisinha.

Na segunda parte do livro, o padrinho de Leonardo morre, e ele tem que voltar a viver com o pai, Leonardo- Pataca. Acaba não se dando bem com sua nova madrasta e após uma discussão, foge de casa.

Leonardo vai viver com um amigo, em uma casa bastante agitada e com muita gente. Acaba se apaixonando por Vidinha. O amor é recíproco. Porém, esse namoro não agrada aos dois primos da moça, que têm intenções de se casar com ela. Para tirar Leonardo do caminho, eles vão até o Major Vidigal, espécie de chefe de polícia e juiz da cidade, e acusam Leonardo de vadiagem. Vidigal prende Leonardo quando ele, Vidinha, e seus dois primos saem para um passeio noturno. Mas no caminho até a delegacia, ele consegue fugir. Mais tarde, Leonardo arruma um emprego na Ucharia Real. Dessa forma, Vidigal não poderia prendê-lo.

Logo o protagonista se envolve com a mulher do "toma-largura" (funcionário público humilde), é demitido e preso. Enquanto isso, José Manuel e Luisinha se casam, porém ele a trata muito mal. Vidinha, com ciúmes de Leonardo, vai tomar satisfações com a mulher do "toma-largura". Mas, o que acaba acontecendo, é que o "toma-largura" se interessa por Vidinha. Enquanto isso, por saber muito sobre a vida marginal, Leonardo vira policial. Porém, Leonardo, pelo seu gosto por travessuras e muitas vezes pelo seu bom coração, acaba protegendo e ajudando os bandidos. Vidigal o prende.

A comadre, em desespero, tenta de todas as formas a libertação de Leonardo, mas tudo em vão, até ela conhecer Maria-Regalada, velho amor de Vidigal. Juntas não só conseguem a libertação de Leonardo, como sua promoção a sargento. E isso tudo vem em boa hora, já que com a morte de José Manuel, Luisinha agora viúva, está livre para se casar com Leonardo.

Existe, entre os críticos literários, considerável discussão sobre a escola literária a que pertence “Memórias de um Sargento de Milícias”. No final do século XIX, o crítico José Veríssimo interpretou a obra como um romance pré-realista, em virtude de sua inclinação para o retrato social e da extinção do maniqueísmo das personagens (divididas em boas ou más).

Depois Mário de Andrade aproximou-a do romance picaresco espanhol (em que a personagem vive ao sabor do acaso), idéia refutada pelo crítico contemporâneo, Antonio Candido, quando analisa o livro de Almeida em “Dialética da malandragem”: “O malandro, como o pícaro, é espécie de um gênero mais amplo de aventureiro astucioso, comum a todos os folclores”, porém, ao contrário dos pícaros “cujas malandragens visam quase sempre ao proveito ou a um problema concreto, lesando freqüentemente terceiros na solução”, Leonardo encaixa-se na categoria dos malandros, pois é um misto de “boa vida” esperto e tolo ao mesmo tempo.

“Memórias de um Sargento de Milícias” rompe com a tradicional postura idealizadora do narrador romântico, em relação aos indivíduos e também à terra. O narrador transita da terceira para a primeira pessoa. Ele também assume uma cumplicidade de caráter metalingüístico com o leitor, o que significa um anúncio de procedimentos de Machado de Assis – autor do Realismo, percebido nas conversas com o leitor e nos comentários irônicos que faz a propósito do que conta.
Outro aspecto que questiona a classificação de obra do Romantismo, relaciona-se ao fato de que as temáticas de “Memórias” não se enquadram em nenhuma das racionalizações ideológicas reinantes na literatura romântica brasileira de então: indianismo, nacionalismo, grandeza, sofrimento, redenção pela dor, pompa do estilo etc.

Também não há idealização das personagens, mas observação direta e objetiva. Presença de camadas inferiores da população (barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, "saloias", designados pela ocupação que exercem). As personagens não são heróis nem vilões, praticam o bem e o mal, impulsionadas pelas necessidades de sobrevivência (a fome, a ascensão social) – outro aspecto do Realismo.

O “happy end” (final feliz) é apontado como uma das principais características românticas da obra. Apesar de Leonardo passar por inúmeras peripécias, supera todas as dificuldades. Triunfa o bem e o primeiro amor. O “anti-herói” quase perde sua amada, mas acaba recuperando-a – quando ela fica viúva do primeiro marido – ao final do livro. Antonio Candido é um dos críticos que defende a inserção da obra no cânone do Romantismo, embora deixe claro que “Memórias de um Sargento de Milícias” apresenta certa excentricidade em relação às demais narrativas românticas do período.

terça-feira, 3 de março de 2009

As várias facetas de Machado de Assis

Clarice Pessoa, graduada em Letras, professora.


Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda de que descobre o encoberto.
Machado de Assis




Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu e morreu na cidade do Rio de Janeiro, respectivamente, em 21 de junho de 1839 e 29 de setembro de 1908. Sua obra tem raízes nas tradições da cultura européia e transcende a influência das escolas literárias nacionais.

Filho de um pintor de casas mestiço de negro e português, após a morte da mãe foi criado pela madrasta, também mestiça. Adoentado, epiléptico, gago e de figura trivial, encontrou emprego como aprendiz de tipógrafo aos 17 anos de idade, começando a escrever durante seu tempo livre. Em breve, começou a publicar obras românticas. Colaborou regularmente na imprensa carioca.

Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu seu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos. A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica.

Em 1869 Machado era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e num feliz casamento com uma culta senhora, Carolina Augusta Xavier de Novais. Naquele ano a doença fez o autor afastar-se temporariamente de suas atividades e, na sua volta, publica um livro extremamente original, pouco convencional para o estilo da época — "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) —, que, juntamente com "O Mulato" (de Aluísio de Azevedo), constitui o marco do realismo na literatura brasileira. Das "Memórias" provém aquele pensamento do personagem que julga-se feliz por não ter deixado descendentes que perpetuassem o legado da miséria humana.

Publicou ainda mais dois romances de sua famosa tríade, "Quincas Borba" (1891) e "Dom Casmurro" (1899). Estes livros, ao lado de suas histórias curtas ("Histórias da Meia Noite", "Papéis Avulsos", "Histórias Românticas", "Histórias sem Data", "Várias Histórias", "Páginas Recolhidas", "Relíquias de Casa Velha", "Contos Fluminenses", "Crônicas") fizeram sua fama como escritor.

Urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, não se posicionou politicamente em questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura, embora tenha escrito obra que enfoque as temáticas. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. O mundo natural inexiste em seu trabalho. Escreve com profundo pessimismo e desilusão que seriam insuportáveis se não estivessem disfarçados sob o manto da ironia e do humor inteligente. Foi o principal responsável pela fundação da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente; permaneceu nesta qualidade até sua morte.

O Machado poeta é menos conhecido e apreciado, apesar de sua primeira manifestação literária ter sido feita justamente com uma poesia ("Ela", publicado na "Marmota Fluminense"), aos 16 anos de idade.

Publicou quatro livros de poesia. "Crisálidas" (1864) e "Falenas" (1870) mostram nítida influência de Castro Alves, com alguma pregação dos ideais de liberdade. Em "Americanas" (1875) as influências alencarinas são patentes, e o próprio Machado vale-se do recurso da metalinguagem externa em uma importante advertência inicial de que o assunto do livro não era unicamente os aborígenes brasileiros. "Ocidentais" (1901) já mostra elementos do realismo: ironia, niilismo (descrença absoluta) e objetividade.

Em sua primeira fase, marcada por obras com traços claramente românticos, destacam-se os romances ”Ressurreição” (1872), “A mão e a luva” (1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878). A estrutura deles demonstra uma intenção evidente de divertir e moralizar, muito presa à forma imposta pelo folhetim da época.

Os romances da segunda fase machadiana concentram-se na vida falsidade da vida depois do casamento, marcado pela traição. A insistência nesse tema parece ter origem no pessimismo do autor, que vê as relações humanas sempre motivadas por interesse. Tal visão faz com que as personagens, reflexo das camadas dominantes, busquem proveito próprio, sem espaço para ações desinteressadas.

Considerado ícone da Literatura Brasileira e, reconhecido internacionalmente, em seus 69 anos de idade de vida, Machado de Assis nunca se afastou mais de 120 quilômetros do Rio de Janeiro. Suas obras são de domínio público e podem ser baixadas integralmente via internet. A dica de site é http://www.machadodeassis.org.br/. Nele existem diversas indicações de artigos, teses e monografias - nacionais e internacionais - sobre vida e obra do autor.