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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Matando para libertar “Teresa”

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.


José Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925. Antes de ser consagrado um dos principais escritores do país pela crítica e pelo público, ganhando diversos prêmios nacionais e internacionais, Rubem Fonseca foi comissário de polícia. É provável que dessa experiência venha um vasto catálogo de casos e personagens do submundo do crime, mas se fossem meros relatos da violência urbana, não seria literatura e sim boletim de ocorrência, ou nota policial jornalística. O fato de conseguir enxergar as tragédias humanas, dando a elas uma densidade única, diz respeito à sensibilidade e à arte construtiva das palavras e da imaginação fonsequiana.

Sua escrita agressiva se caracteriza pela utilização de frases curtas, cortes abruptos e diálogos ríspidos, e algumas particularidades repugnantes, como a escatologia, por exemplo. Com preciso domínio sobre o ofício, o escritor é capaz de criar as situações mais inesperadas, fazendo parecer que nada de extraordinário esteja acontecendo. É assim o enredo do conto “Teresa”.

Dividido em 27 narrativas breves, o livro “Ela e outras mulheres”, lançado em 2006 pela editora Companhia das Letras, apresenta todos os elementos da ficção fonsequiana que tanto atraem os leitores brasileiros, sobretudo os mais jovens. Batizados com nomes de mulheres e seguindo a ordem do nosso alfabeto, os contos estão permeados de violência, sexo, desejo, ambição, pobreza, discórdia, miséria e luxo.

Os títulos dos 27 contos são nomes próprios femininos, em ordem alfabética, de “Alice” a “Zezé” e enfocam a violência urbana em narrativas curtas e rápidas. Uma característica significativa é a falta de aspas e travessões nos diálogos. Fonseca não distingue as falas dos personagens, detalhe que se por um lado exige mais atenção do leitor.

Inicialmente o conto “Teresa” aponta para uma possível falta de caráter da personagem feminina. A idoneidade de dona Teresa é colocada sob suspeita pelos dois filhos do doutor Gumercindo. Querendo o apartamento ocupado pelo pai e sua segunda esposa, os filhos assim expressam ao falar da situação: “Um apartamento desse tamanho e só moram lá o velho e aquela vigarista, disse um deles. A filha-da-puta só quer o dinheiro do velho, respondeu o outro, mas ele não morre, noventa anos e não morre, ele deve estar muito decepcionada, já atura o velho há cinco anos.”

Quem narra a história é José, vizinho do casal de anciãos. Após ouvir esse comentário, ele fica mais atento às atitudes de Teresa e observa: “Um dia depois de ouvir a conversa dos filhos no elevador, desci com o doutor Gumercindo e dona Teresa. Sem que percebessem, olhei dona Teresa atentamente. Ela cuidava do doutor Gumercindo com carinho e desvelo, nenhuma outra mulher do prédio tratava o marido daquela maneira.”

José se descreve despachante. Faz viagens para despachar. No retorno de uma das viagens, ele percebe que os dois filhos do doutor ocupam o apartamento, junto com duas mulheres “com caras de putas”, segundo o narrador. Ao perguntar para o porteiro fica sabendo que Gumercindo morreu e que dona Teresa pouco sai de casa. Ele, então, investiga o fato. Barrado pela empregada dos filhos, José não consegue ver dona Teresa. Com astúcia, volta ao apartamento dois dias depois, na folga da empregada e assim consegue adentrar o imóvel: “Um dos grandões entreabriu a porta. Vim visitar dona Teresa, eu disse. Ela não pode receber visitas, ele respondeu, irritado, dá o fora. Começou a fechar a porta, mas não deixei. Abre essa merda, eu disse, encostando a pistola nos cornos dele.”

Tal atitude junto à necessidade de deslocamento para despachar, alerta os leitores de que o “despacho” pode não ser algo relativo a veículo, criando uma tensão. Descobre-se, ao final, que José é um assassino de aluguel, que, aliás, freqüenta outras tramas, mostrando muita habilidade em casos difíceis de “despacho”. No conto “Teresa”, ele será uma espécie de salvador, pois mata os filhos de Gumercindo, liberta dona Teresa amarrada em uma cama de hospital, expulsa as “putas” do apartamento, devolvendo-o à anciã. Ela o agradece com um beijo na mão e diz que ele é um santo. Sozinho, porém, ele se define: “Um santo porra nenhuma. Sou um assassino profissional, mato por dinheiro. Nem sempre.”, e o conto se encerra.

Criticado por boa parte da impressa especializada por insistir em histórias de violência e sexo, Rubem Fonseca parece não se importar muito com tais opiniões. A prosa de autor pode ser vista como uma espécie de espelho que reflete a realidade por meio da literatura. Mais do que dialogar com os leitores sobre temas que incomodam, sua escrita coloca o ser humano no centro de todas as coisas, revelando a complexidade de uma existência quase sempre sem sentido. Exemplo claro desse flerte existencial, que quase sempre aparece velado por diálogos e frase banais, é a atitude libertária do matador profissional Zé, do conto “Teresa”. O enredo é curtinho e vale a pena ser lido na íntegra!

Um mineiro muito carioca

Geórgia Pereira, Acadêmica de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina - UEL.

Mineiro, bastante reservado como muitos de sua terra, e avesso à exposição pública, Rubem Fonseca, 81 anos, é um dos importantes nomes que compõem a produção literária no Brasil. Ele construiu ao longo de sua carreira, romances e contos que lhe caracterizam pela abordagem de temas densos, com linguagem sintética e ágil.

O autor está inserido na esfera das produções contemporâneas, que datam da década de 60. O marco de sua produção aconteceu com o livro de contos Feliz Ano Novo (1975), alvo de críticas e motivo de censura. Desde então, Fonseca apresentou estilo conciso e direto, imprimindo em seus textos, temáticas policiais e violentas, com assassinos, prostitutas e amantes.

Além do tom nitidamente policialesco, em que há geralmente um crime ou um mistério a ser desvendado, seus textos podem ser vistos como uma paródia do gênero policial tradicional, visto que os crimes atuam apenas como um disfarce de suas críticas a uma sociedade opressora do indivíduo.

Romancista e contista, Rubem imprime em suas obras um ritmo intenso na percepção dos acontecimentos, mas deixa a cargo de quem lê, a completude e a interpretação do enredo. Traz uma narrativa “curta e grossa” repleta de marcas de aspereza, retratando a realidade do subúrbio carioca. Sua literatura é crua, desnuda a ação humana sem nenhum pudor.

Mineiro de Juiz de Fora, José Rubem Fonseca nasceu no dia 11 de maio de 1975. Aos 8 anos foi para o Rio de Janeiro onde estudou Direito na antiga Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. Depois de formado, iniciou sua carreira na polícia carioca, como comissário do 16º distrito. De acordo com alguns relatos, Fonseca se tornou policial pelos mesmos motivos que o comissário Mattos cita em "Agosto", romance do autor: "No meu caso, fora simplesmente a incapacidade de arranjar um emprego melhor. Depois de três anos advogando para criminosos pobres, sem ganhar dinheiro para pagar o aluguel do escritório, sem dinheiro para casar, surgira aquela oportunidade de trabalhar vinte e quatro horas e ter setenta e duas horas de folga".

Rubem Fonseca teve atuação de destaque no grupamento policial do Rio de Janeiro entre os anos de 1952 e 58, ficando mais tempo no cargo de policial de gabinete, responsável pelas relações públicas do setor. Muitas das experiências vividas durante este período estão registradas na obra “Aluno brilhante da Escola de Polícia”. Em 1953, Fonseca foi selecionado para fazer cursos de aperfeiçoamento nos Estados Unidos, local onde estudou administração na cidade de Nova York e posteriormente, comunicação em Boston. O mineiro deixou a polícia em 1958, quando foi exonerado do cargo e ingressou na empresa Light, atuando ali durante a década de 60. Com a saída da vida dos negócios, seu novo destino foi a literatura.

Uma das novas correntes inauguradas por Fonseca foi a que o crítico literário Alfredo Bosi classificou como “brutalista”. Bosi defende que não é uma questão de estilo, mas sim o retrato da sociedade repressora da época, já que tal significado foi reconhecido durante a ditadura militar brasileira. Com o término da ditadura, Fonseca conservou essa característica para fazer o retrato mundano da violência na sociedade carioca.

Já Antonio Candido faz uso do termo “realismo feroz” na tentativa de mostrar o traço marcante no trato com o texto e com os temas retratados nas suas produções. Escrever sobre as angústias de uma sociedade essencialmente urbana – e ser identificado por essa característica – é uma opção literária feita pelo escritor

As obras de destaque são seus livros de contos como Os primeiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia MacCartney (1967), Feliz ano novo (1975) e O cobrador (1979). Dentre os romances, sobressaem O caso Morel (1973), A grande arte (1983), Bufo e Spallanzani (1986) e Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988). Uma de suas últimas obras é intitulada “Ela e outras mulheres” que reúne 27 contos, todos com nomes próprios femininos, organizados em ordem alfabética. Tal obra foi vencedora do Prêmio Academia Brasileira de Ficção, Romance, Teatro e Conto em 2007. Além da produção de contos e romances, o autor também contribui para a produção cinematográfica, produzindo roteiros para filmes como “O Homem do ano” dirigido por José Henrique Fonseca, filho do autor, “Bufo & Spallanzani” e Relatório de um Homem Casado”, ambos dirigidos por Flávio Tambelini e “A Grande Arte”, dirigido por Walter Salles Jr.

Mais do que dialogar com os leitores sobre temas que incomodam, a escrita fonsequiana coloca o ser humano no centro de todas as coisas, revelando a complexidade de uma existência quase sempre sem sentido.