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quinta-feira, 9 de abril de 2009

“Ao vencedor, as batatas!” - Quincas Borba

Clarice Pessoa, graduada em Letras, professora da rede pública.


Como diz o próprio autor, Machado de Assis, "o livro anda devagar" e "o meu estilo" é "como os ébrios (bêbados), guinam à direita e à esquerda, andam e param...". E é mais ou menos assim que anda a narrativa de Quincas Borba.

O romance realista, de 1891, conta a vida de Rubião, um pacato professor de Barbacena, que se torna rico da noite para o dia ao receber uma herança deixada pelo filósofo Quincas Borba, criador de uma filosofia chamada Humanitismo. Rubião é nomeado herdeiro universal do filósofo sob a condição de cuidar de seu cachorro, Quincas Borba, com o mesmo nome do dono.

Rubião passa a viver no luxo da Corte do Rio de Janeiro, num ambiente a que não estava acostumado e que muito o deslumbra. Torna-se amigo de um casal, Cristiano Palha e Sofia. Ele se apaixona por Sofia. O amor era tão grande que Rubião foi obrigado a assumi-lo perante o objeto de desejo. Sofia recusa seu amor, mesmo tendo lhe dado esperanças tempos atrás, e conta o fato para Cristiano. Apesar de sua indignação, o capitalista continua a relacionar-se com Rubião, pois queria obter os restos da fortuna que ainda existia.

Palha faz uma proposta empolgante a Rubião: investir seu dinheiro na área de exportação. Empolgado com a esperança de multiplicar seu dinheiro, Rubião acaba caindo na armadilha do casal, que lhe dizem que outro negociador de "fora" os passou para trás e ficou com o dinheiro do investimento.

O amor de Sofia, não correspondido, aos poucos começa a despertar a loucura em Rubião. Já muito afetado pela doença, e de volta à sua cidade natal, relembra parte de uma explicação que lhe foi dada por Quincas Borba, e que habitou muito sua mente nos primeiros momentos quando soube que herdara toda fortuna do citado filósofo, diz: "Ao vencedor, as batatas".

Retoma-se, então, o Humanitismo. Que teoria é essa? É uma visão irônica das filosofias as quais pregam que a humanidade feita de uma só essência. A teoria dos Humanitas nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo aparece o pensamento pessimista e absurdo. O homem não aparece como um ser maravilhoso e perfeito, mas cheio de falsidades, em que um cão pode ser mais amigo e fiel do que o ser humano. A seguir, trechos do capítulo V ilustrando a relação de Quincas Borba, o filósofo, com seu cão Quincas Borba:
“— Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda parte, existe também no cão, e este pode ser assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano... O cão ouvindo, correu a cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:
— Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo!”

O homem, para o Humanitismo, não significa nada; é falso, instável e fraco. Podemos notar isto nas personagens machadianas. Na luta pela sobrevivência quem vence é o mais forte, e não quem tem mais caráter. No trecho abaixo, do capítulo VI, a explicação da teoria:
“— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e irá à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

Depois da morte de Quincas Borba, Rubião sente-se dono das batatas. É um vencedor. As batatas, para ele, representavam riqueza, posição social. Não sabia ele que, na realidade, representavam, simplesmente, meras batatas. Não tinham valor algum. Seriam, apenas, o veículo de sua destruição. E ele que até então não entendera a exposição do filósofo, passa a compreender a fórmula:
“— Ao vencedor, as batatas!
Tão simples! Tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e notou que até há pouco foi, por assim dizer, um exterminado, um bolha; mas que ora não, era um vencedor. Não havia dúvida; as batatas fizeram-se para a tribo que elimina a outra para transpor a montanha e ir às batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacável, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:
— Ao vencedor, as batatas!” (Cap. XVIII)

A loucura de Rubião o levou à morte e foi comparada à mesma que causou o falecimento de Quincas Borba. Louco e explorado por várias pessoas, principalmente Palha e Sofia, Rubião morre na miséria e assim se exemplifica a tese do humanitismo.

A dica para download das obras completas de Machado de Assis é o site da biblioteca virtual do estudante brasileiro: http://www.bibvirt.futuro.usp.br

“Memórias de um Sargento de Milícias” – Romântico ou Realista?

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

Nascido no Rio de Janeiro em 1831, Manuel Antônio de Almeida teve existência breve, pois morre tragicamente em 1861, com apenas 30 anos de idade, vítima de um naufrágio na Baía de Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Formou-se em Medicina, mas nunca clinicou. Para manter os estudos, traduzia folhetins franceses, escrevia crônicas e críticas para o “Correio Mercantil”. Em 1858, Almeida foi nomeado diretor da Tipografia Nacional, ocasião em que teve oportunidade de auxiliar o então tipógrafo Joaquim Maria Machado de Assis, mais pobre e desvalido que ele.

“Memórias de um Sargento de Milícias”, única obra de Almeida, foi publicada, sob anonimato, em folhetins (publicação semanal), no suplemento dominical “A Pacotilha” do jornal em que trabalhava, entre 1852 e 1853. Pouco tempo depois, o romance foi publicado em forma de livro, em dois volumes, respectivamente em 1854 e 1855, assinada com o pseudônimo “Um Brasileiro”.

O livro de Manuel Antônio inova pela linguagem realista e satírica, que não correspondia muito ao gosto da época, motivo pelo qual não teve muita aceitação e parecia mesmo que estava fadado ao esquecimento, entretanto, o tempo encarregou-se de valorizá-lo e, se não chegou ao sucesso estrondoso, continua vivo pelos anos afora.

A obra é dividida em duas partes: a primeira com vinte e três capítulos e a segunda com vinte e cinco. Inicia-se com a frase “Era no tempo do rei”, que situa a narrativa no século XIX, no Rio de Janeiro. Conta a vinda de Leonardo-Pataca para o Brasil. Ainda no navio, namora com a conterrânea Maria da Hortaliça. Daí resultou a união e “sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem deixar o peito”.

Passado alguns anos de convivência Leonardo-Pataca descobre que Maria da Hortaliça o traía com vários homens, dá-lhe uma surra e ela foge com um capitão de navio para Portugal. O filho Leonardo é abandonado pelos pais e o Compadre barbeiro e a Comadre parteira – padrinhos do menino – se encarregam dele.

Na primeira parte do livro o leitor acompanha o crescimento do herói; a infância rica em travessuras; a adolescência com as primeiras ilusões amorosas e as aventuras movimentadas. Essa parte encerra-se com a declaração de amor, toda desajeitada, depois de muitas tentativas e retrocessos, de Leonardo à Luisinha.

Na segunda parte do livro, o padrinho de Leonardo morre, e ele tem que voltar a viver com o pai, Leonardo- Pataca. Acaba não se dando bem com sua nova madrasta e após uma discussão, foge de casa.

Leonardo vai viver com um amigo, em uma casa bastante agitada e com muita gente. Acaba se apaixonando por Vidinha. O amor é recíproco. Porém, esse namoro não agrada aos dois primos da moça, que têm intenções de se casar com ela. Para tirar Leonardo do caminho, eles vão até o Major Vidigal, espécie de chefe de polícia e juiz da cidade, e acusam Leonardo de vadiagem. Vidigal prende Leonardo quando ele, Vidinha, e seus dois primos saem para um passeio noturno. Mas no caminho até a delegacia, ele consegue fugir. Mais tarde, Leonardo arruma um emprego na Ucharia Real. Dessa forma, Vidigal não poderia prendê-lo.

Logo o protagonista se envolve com a mulher do "toma-largura" (funcionário público humilde), é demitido e preso. Enquanto isso, José Manuel e Luisinha se casam, porém ele a trata muito mal. Vidinha, com ciúmes de Leonardo, vai tomar satisfações com a mulher do "toma-largura". Mas, o que acaba acontecendo, é que o "toma-largura" se interessa por Vidinha. Enquanto isso, por saber muito sobre a vida marginal, Leonardo vira policial. Porém, Leonardo, pelo seu gosto por travessuras e muitas vezes pelo seu bom coração, acaba protegendo e ajudando os bandidos. Vidigal o prende.

A comadre, em desespero, tenta de todas as formas a libertação de Leonardo, mas tudo em vão, até ela conhecer Maria-Regalada, velho amor de Vidigal. Juntas não só conseguem a libertação de Leonardo, como sua promoção a sargento. E isso tudo vem em boa hora, já que com a morte de José Manuel, Luisinha agora viúva, está livre para se casar com Leonardo.

Existe, entre os críticos literários, considerável discussão sobre a escola literária a que pertence “Memórias de um Sargento de Milícias”. No final do século XIX, o crítico José Veríssimo interpretou a obra como um romance pré-realista, em virtude de sua inclinação para o retrato social e da extinção do maniqueísmo das personagens (divididas em boas ou más).

Depois Mário de Andrade aproximou-a do romance picaresco espanhol (em que a personagem vive ao sabor do acaso), idéia refutada pelo crítico contemporâneo, Antonio Candido, quando analisa o livro de Almeida em “Dialética da malandragem”: “O malandro, como o pícaro, é espécie de um gênero mais amplo de aventureiro astucioso, comum a todos os folclores”, porém, ao contrário dos pícaros “cujas malandragens visam quase sempre ao proveito ou a um problema concreto, lesando freqüentemente terceiros na solução”, Leonardo encaixa-se na categoria dos malandros, pois é um misto de “boa vida” esperto e tolo ao mesmo tempo.

“Memórias de um Sargento de Milícias” rompe com a tradicional postura idealizadora do narrador romântico, em relação aos indivíduos e também à terra. O narrador transita da terceira para a primeira pessoa. Ele também assume uma cumplicidade de caráter metalingüístico com o leitor, o que significa um anúncio de procedimentos de Machado de Assis – autor do Realismo, percebido nas conversas com o leitor e nos comentários irônicos que faz a propósito do que conta.
Outro aspecto que questiona a classificação de obra do Romantismo, relaciona-se ao fato de que as temáticas de “Memórias” não se enquadram em nenhuma das racionalizações ideológicas reinantes na literatura romântica brasileira de então: indianismo, nacionalismo, grandeza, sofrimento, redenção pela dor, pompa do estilo etc.

Também não há idealização das personagens, mas observação direta e objetiva. Presença de camadas inferiores da população (barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, "saloias", designados pela ocupação que exercem). As personagens não são heróis nem vilões, praticam o bem e o mal, impulsionadas pelas necessidades de sobrevivência (a fome, a ascensão social) – outro aspecto do Realismo.

O “happy end” (final feliz) é apontado como uma das principais características românticas da obra. Apesar de Leonardo passar por inúmeras peripécias, supera todas as dificuldades. Triunfa o bem e o primeiro amor. O “anti-herói” quase perde sua amada, mas acaba recuperando-a – quando ela fica viúva do primeiro marido – ao final do livro. Antonio Candido é um dos críticos que defende a inserção da obra no cânone do Romantismo, embora deixe claro que “Memórias de um Sargento de Milícias” apresenta certa excentricidade em relação às demais narrativas românticas do período.

terça-feira, 3 de março de 2009

As várias facetas de Machado de Assis

Clarice Pessoa, graduada em Letras, professora.


Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda de que descobre o encoberto.
Machado de Assis




Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu e morreu na cidade do Rio de Janeiro, respectivamente, em 21 de junho de 1839 e 29 de setembro de 1908. Sua obra tem raízes nas tradições da cultura européia e transcende a influência das escolas literárias nacionais.

Filho de um pintor de casas mestiço de negro e português, após a morte da mãe foi criado pela madrasta, também mestiça. Adoentado, epiléptico, gago e de figura trivial, encontrou emprego como aprendiz de tipógrafo aos 17 anos de idade, começando a escrever durante seu tempo livre. Em breve, começou a publicar obras românticas. Colaborou regularmente na imprensa carioca.

Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu seu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos. A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica.

Em 1869 Machado era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e num feliz casamento com uma culta senhora, Carolina Augusta Xavier de Novais. Naquele ano a doença fez o autor afastar-se temporariamente de suas atividades e, na sua volta, publica um livro extremamente original, pouco convencional para o estilo da época — "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) —, que, juntamente com "O Mulato" (de Aluísio de Azevedo), constitui o marco do realismo na literatura brasileira. Das "Memórias" provém aquele pensamento do personagem que julga-se feliz por não ter deixado descendentes que perpetuassem o legado da miséria humana.

Publicou ainda mais dois romances de sua famosa tríade, "Quincas Borba" (1891) e "Dom Casmurro" (1899). Estes livros, ao lado de suas histórias curtas ("Histórias da Meia Noite", "Papéis Avulsos", "Histórias Românticas", "Histórias sem Data", "Várias Histórias", "Páginas Recolhidas", "Relíquias de Casa Velha", "Contos Fluminenses", "Crônicas") fizeram sua fama como escritor.

Urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, não se posicionou politicamente em questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura, embora tenha escrito obra que enfoque as temáticas. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. O mundo natural inexiste em seu trabalho. Escreve com profundo pessimismo e desilusão que seriam insuportáveis se não estivessem disfarçados sob o manto da ironia e do humor inteligente. Foi o principal responsável pela fundação da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente; permaneceu nesta qualidade até sua morte.

O Machado poeta é menos conhecido e apreciado, apesar de sua primeira manifestação literária ter sido feita justamente com uma poesia ("Ela", publicado na "Marmota Fluminense"), aos 16 anos de idade.

Publicou quatro livros de poesia. "Crisálidas" (1864) e "Falenas" (1870) mostram nítida influência de Castro Alves, com alguma pregação dos ideais de liberdade. Em "Americanas" (1875) as influências alencarinas são patentes, e o próprio Machado vale-se do recurso da metalinguagem externa em uma importante advertência inicial de que o assunto do livro não era unicamente os aborígenes brasileiros. "Ocidentais" (1901) já mostra elementos do realismo: ironia, niilismo (descrença absoluta) e objetividade.

Em sua primeira fase, marcada por obras com traços claramente românticos, destacam-se os romances ”Ressurreição” (1872), “A mão e a luva” (1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878). A estrutura deles demonstra uma intenção evidente de divertir e moralizar, muito presa à forma imposta pelo folhetim da época.

Os romances da segunda fase machadiana concentram-se na vida falsidade da vida depois do casamento, marcado pela traição. A insistência nesse tema parece ter origem no pessimismo do autor, que vê as relações humanas sempre motivadas por interesse. Tal visão faz com que as personagens, reflexo das camadas dominantes, busquem proveito próprio, sem espaço para ações desinteressadas.

Considerado ícone da Literatura Brasileira e, reconhecido internacionalmente, em seus 69 anos de idade de vida, Machado de Assis nunca se afastou mais de 120 quilômetros do Rio de Janeiro. Suas obras são de domínio público e podem ser baixadas integralmente via internet. A dica de site é http://www.machadodeassis.org.br/. Nele existem diversas indicações de artigos, teses e monografias - nacionais e internacionais - sobre vida e obra do autor.

A casmurrice interpretativa: “Capitu traiu ou não Bentinho?”

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.


A dificuldade em escrever um artigo sobre, talvez, a obra mais polêmica da literatura brasileira é considerável. Há mais de 100 anos que diversos críticos literários se propõem a analisar cada faceta do romance “Dom Casmurro”, relacionando-o à vida do autor, à sociedade contemporânea deste, ao estilo e escola literária Realista, à intertextualidade com Otelo, de William Shakespeare, e a outras tantas possibilidades interpretativas.

Publicado em 1899 em 148 capítulos (todos titulados e curtos) o romance é narrado em primeira pessoa. O Dr. Bento Santiago, familiarmente chamado Bentinho, relata a sua própria história a partir de um "flashback" (retorno, rememoração) da velhice para a infância, com o objetivo de "atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência".

Entre as “duas pontas da vida” é possível perceber transformações no narrador-personagem. A primeira fase corresponde à adolescência e se estende até a chegada do primeiro filho, e percebemos a transformação de Bentinho em Dr. Bento Santiago.

Com o destino temporariamente marcado por sua mãe, Dona Glória, a qual tinha feito uma promessa em que o filho seguiria a vida sacerdotal, Bentinho - órfão de pai - cresceu em uma família típica da elite patriarcal burguesa, tendo a superproteção de Tio Cosme, prima Justina e o agregado José Dias. Entretanto o garoto não deseja ser padre e já aos quinze anos começa um relacionamento com uma vizinha – Capitolina, chamada e lembrada pelos leitores como Capitu (garota de 14 anos, de origem pobre, que vivia com os pais: Pádua e Fortunata). A convivência e as brincadeiras vão aproximando Bentinho e Capitu que de amigos passam a namorados.

Sobre o agregado José Dias cabe salientar que é uma personagem plana, caricatural, simbolizada por seu parasitismo, e configura uma amostra da condição elitista da família Santiago, pois só as famílias abastadas do Brasil imperial possuíam agregados que, de acordo com o grau de instrução, desempenhavam funções diversas, inclusive de conselheiro. Dias cuidava de Bentinho com "extremos de mãe e atenções de servo".

Os pais de Capitu posicionam-se favoravelmente ao namoro; já dona Glória, alertada pelo agregado José Dias, sente a promessa ameaçada; por isso coloca o filho Bentinho no seminário.

No seminário, Bentinho conhece Escobar, ficam amigos íntimos (os dois descobrem afinidades - ambos estão no seminário sem vocação sacerdotal). Anos depois, Escobar e Bentinho abandonam o seminário. O primeiro dedica-se ao comércio; Bentinho forma-se em Direito. Escobar casa-se com Sancha, amiga de Capitu, e Bentinho contrai matrimônio com Capitu, corroborando o namoro da adolescência. Assim a amizade dos dois pares solidifica: moram perto e tornam-se muito unidos.

Até esse momento da narrativa percebe-se a trajetória de um Bentinho que sai da condição de um garoto mimado, superprotegido e obediente, revelando-se um homem ardiloso que convence ao agregado interesseiro a tirá-lo do seminário para cursar Direito e poder, assim, realizar o sonho de casar-se com a vizinha.

O casamento entre Bento e Capitu começa a entrar em crise a partir do nascimento do filho Ezequiel que apresenta, segundo o enciumado marido, uma semelhança física com Escobar o que induz Bento a imaginar que Capitu o traiu com o seu melhor amigo. Da constatação, o agora Dr. Bento Santiago com toda a sua rigidez, intolerância e insegurança, consome-se em ciúme. E não pára por aí! O Dr. Bento já está em metamorfose e se transformará em “Dom Casmurro”, segunda “fase” do romance.

Os anos vão passando e Ezequiel, para o Dr. Santiago, fica cada vez mais parecido com Escobar o que dá a “certeza” de que o garoto não é seu filho. O tempo se sucede, Escobar morre afogado no mar. Ao observar no velório a reação de Capitu - "ela olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas" – Dr. Bento chega a uma comprovação pessoal: houve o adultério!

O capítulo em que Escobar é enterrado intitula-se “Olhos de ressaca” e evoca ao episódio em que Bentinho-menino ouviu de José Dias a definição de Capitu como tendo “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. O garoto para confirmar a hipótese do agregado pede à vizinha para examinar seus olhos e chega a seguinte constatação: “Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”. Aquela “ressaca” de outrora ressurge com ímpeto e devasta vidas; confirmando, para o agora “Dom Casmurro”, o caráter afeito à traição daqueles “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

Ele não consegue suportar a "presença da mulher e do filho chegando até a pensar em matá-lo”. O casal passa a ter uma vida conjugal de aparência: “estão, de fato separados, porém convivem” (observe a sutil crítica machadiana à classe burguesa - relação hipócrita). É tentada uma reconciliação através de uma viagem do casal à Europa. Bento volta; Capitu e Ezequiel permanecem na Suíça. Mais tarde Capitu morre sem ter revisto o marido. Já adulto, Ezequiel retorna ao Brasil para visitar o pai que mais uma vez constata a semelhança física entre o filho e Escobar. Pouco depois Ezequiel morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais Casmurro, fecha-se em sua dúvida.

O autor realista discute o ato e o modo de narrar. Ele põe em prática a metalinguagem, em que a própria narrativa trata de se auto-explicar. Logo no início, a metalinguagem se mostra, quando o personagem-narrador explica o título do livro e os motivos que o impulsionaram a escrevê-lo, expresso no capítulo I: “Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores, alguns nem tanto”.

Durante toda a narrativa de “Dom Casmurro”, a metalinguagem tem um papel fundamental, criando cumplicidade com o leitor, que ao invés de apenas ler passivamente, participa do próprio ato de narrar, ao servir de confidente do escritor, transcendendo o próprio texto.

Ao falar de “Dom Casmurro” a pergunta mais imediata e recorrente é: “Capitu traiu ou não Bentinho?” Muitos críticos e estudiosos procuram comprovar a fidelidade ou a infidelidade da moça com “olhos de ressaca”. O enigma que atrai os leitores é assim explicado por Antonio Candido: "Dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a conseqüência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida". É a casmurrice deste que sugere ao leitor o adultério e permite que ao tentar “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência" o leitor contemple uma das mais bem urdidas obras da literatura brasileira.



*Publicado originalmente no suplemento especial "Educação" do jornal "O Paraná", edição 387, página 11, 27/07/2007.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Duas visões, um alvo: Machado de Assis e José Arbex Junior comentam a imprensa

Geórgia Pereira, Acadêmica de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina - UEL.


(...)Ninguém arrancou aos fatos uma significação, e depois, uma opinião.
Machado de Assis

Um monstro! É isso que Machado de Assis representa para a literatura brasileira! Um monstro grande e robusto, não na estatura, nem no tipo físico, mas na sua capacidade intelectual, fazendo uso de seu ácido estilo crítico e sarcástico na forma magistral de arranjar as palavras. Ele marcou muito mais que uma época. Deixou sua sabedoria registrada na imprensa e nos livros que compõe sua vida e obra.

E, na tentativa de resgatar e comemorar o centenário da morte machadiana foi criada em setembro do ano passado a Lei número 11.522 que instituiu 2008 como o Ano Nacional Machado de Assis. Em função disso, o Ministério da Cultura prepara uma agenda repleta de atrações e eventos para rememorar sua produção literária. Está em discussão a apresentação de feiras de livros, conferências, e a homenagem para Machado que será realizada pela Bienal do Livro, em agosto, São Paulo.

Diante de tantas demonstrações, existe um espaço, em especial, que comemora o centenário de modo particular: a Academia Brasileira de Letras. Ali a programação é voltada para uma série de eventos, exposições, mostra de filmes, leituras dramatizadas, além do lançamento de novas edições de livros dedicados à sua obra. Para o dia 20 de junho está agendada a exposição “Machado Vive!”, que pretende fazer uma análise de 800 volumes da biblioteca do autor, e depois, em parceria com a Biblioteca Nacional, vai realizar a compilação desse material em um livro. A relevância de Joaquim Manoel Machado de Assis para a Academia Brasileira de Letras é histórica. Além de sua importância para a literatura, Machado foi um dos seus fundadores e o primeiro presidente da instituição.

Dono de uma escrita única, ele deixa seu legado nas poesias, romances, peças teatrais, contos e crônicas. Dentro desta última modalidade, o escritor carioca abordou os mais variados temas, retratando as minúcias do seu tempo. O cronista Machado de Assis galopou entre o riso e a ironia, o efêmero e o duradouro, viajando do real ao imaginário, e acrescentou detalhes de um cotidiano, destilando todo o veneno (se que é assim pode-se dizer) de uma sociedade, que por ora, se apresentava mesquinha e hipócrita. O “velho bruxo”, como era conhecido, escreveu para o “Diário do Rio de Janeiro”, no século XIX, e ali criticava a postura das classes sociais, além de analisar o comportamento da imprensa da época.

Machado de Assis era contundente em suas análises. Como no fragmento dessa crônica “toda a gente contempla a procissão na rua, as bandas e bandeiras, o alvoroço, o tumulto, e aplaude ou censura, segundo o abolicionista ou outra cousa; mas ninguém dá a razão desta cousa ou daquela cousa; ninguém arrancou aos fatos uma significação, e depois, uma opinião. Creio que fiz um verso” (Bons dias 11 de maio de 1888), ele martela na passividade da população, da não reflexão perante o desenrolar dos fatos, e procurava inquietar os leitores, com seus argumentos.

Hoje, uma das causas que podem ser citadas à falta de reação e argumentação que muitos leitores apresentam depois de entrar em contato com os fatos, especialmente os polêmicos, é o grande fluxo de informação, pois a preocupação em saber o que está acontecendo é maior do que a necessidade de reflexão do que foi dito anteriormente.

No livro Showrnalismo: a notícia como espetáculo (2001), o jornalista José Arbex Junior questiona a instantaneidade da notícia, que ao ser publicada já se torna velha. A velocidade no mundo interconectado aumenta progressivamente, exigindo sempre a renovação, e não a reflexão do que é divulgado. Tal seqüência é designada pelo autor como a síndrome da “amnésia permanente”, classificada como o esquecimento instantâneo da informação, pois indivíduo já se prepara para a recepção de outra novidade que vai surgir imediatamente. “Isso poderia dar a impressão de que a sociedade é beneficiada por uma pluralidade imensa de pontos de vista distintos, possibilitados pela disputa entre as empresas da mídia pela originalidade da notícia. Mas não é bem assim que as coisas acontecem, até porque a sensação de “falta de tempo” para entender a fundo uma notícia estimula o recurso ao clichê, ao preconceito, a reiteração de concepções já formadas.”, defende Arbex.

De maneira geral, atualmente, os veículos desprezam os pequenos fatos, porque isso não se destaca e não atrai público. Já o cronista carioca gostava dos acontecimentos miúdos em detrimento da extrema exacerbação dos grandes acontecimentos, de maior relevância nacional. Machado, ao fazer o retrato do seu cotidiano apresentava outra inquietação: a espetacularização da notícia. “Não gosto que os fatos nem os homens se me imponham por si mesmos. Tenho horror a toda superioridade. Eu é que os hei de enfeitar com dous ou três adjetivos, uma reminiscência clássica, e os mais galões do estilo” (10 de julho de 1892).

Sobre a relevância da informação, Arbex relata que durante a década de 1990, ao dar palestras para universitários, perguntava a eles o que sabiam da Guerra do Golfo ou da Queda do Muro de Berlim. Poucos conseguiam montar uma narrativa desses acontecimentos. A maioria apenas se lembrava de imagens e fatos impactantes, ou seja, o espetáculo se sobrepôs ao conteúdo.

Em outra crônica o jornalista do século XIX narra que “Não é crível que tamanho número de pessoas se divirtam em rasgar o ventre alheio, só para fazer alguma coisa. (...) Recorre à navalha, espalha facadas, certo de que os jornais darão notícias das suas façanhas e divulgarão os nomes de alguns” (publicada na seção Balas de estalo: 14/3/1885). Nesta crônica, Machado revela o desejo da imprensa em promover notícias violentas, com forte impacto tanto na imagem quanto na escrita, chamando a atenção da população. Isso, como se sabe, estimula a informação sensacionalista e a sua constante produção, entrando numa designação que se pode chamar de jornalismo marrom. Então, surge “a capacidade adquirida pelas corporações de recriar sua própria imagem e a imagem do mundo, mediante a manipulação do imaginário coletivo”, pois é esse quem interessa para os veículos midiáticos, conforme Arbex.

O Machado de Assis do jornalismo de séculos passados acreditava que “o jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual, em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e fogo das convicções” (crônica “O jornal e o livro”, de 10 e 12/1/1859). Numa visão otimista, a veiculação diária das notícias surgia como uma alavanca social, sinal de desenvolvimento e progresso. Um dos desejos do velho bruxo, no seu exercício cotidiano da escrita, era usar o jornal como instrumento de denúncia, informação e formação.

Fica a dica de consulta ao site www.machadodeassis.org.br, da Academia Brasileira das Letras, no qual a pesquisa e difusão das obras machadianas são preconizadas e amplamente amparadas. Há diversas indicações de artigos, teses e monografias - nacionais e internacionais - sobre vida e obra desse “Monstro”.

Outra dica é o livro de José Arbex Jr., Showrnalismo: a notícia como espetáculo, da editora Casa Amarela (Summus).

Vale conferir!