quarta-feira, 6 de maio de 2009

“Lucíola”: o amor de uma cortesã

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.


O romance urbano ou de costumes, o romance histórico e o romance regionalista, são subdivisões da ficção romântica. No Brasil, o único autor a compor enredos privilegiando todas as tendências foi José de Alencar. Filho de ex-padre com a prima, Alencar seguiu os passos diplomáticos de seu progenitor. Uma viagem feita com este, aos nove anos de idade, produziu no autor romântico impressões marcantes, sobretudo as paisagens vistas, e que mais tarde foram retratadas em seus inúmeros romances.

Além de seguir os passos do pai na carreira política, Alencar obteve grande êxito como escritor, sendo reconhecido ainda em vida pela imaginação fértil, acumulando sucessos com as narrativas publicadas nos folhetins brasileiros do século XIX. Em “Como e porque sou romancista”, o autor conta que o estímulo para a criação literária veio dos romancistas franceses e do sucesso alcançado pelo brasileiro Joaquim Manuel de Macedo com “A Moreninha”. Em suas palavras: “Que estranho sentir não despertava em meu coração adolescente a notícia dessas homenagens de admiração e respeito tributados ao jovem autor d’A Moreninha! Qual régio diadema valia essa auréola de entusiasmo a cingir o nome de um escritor?”

“Lucíola” faz parte da trilogia “perfis de mulher” junto às obras “Diva” e “Senhora”, escrita pelo autor instigado com o sucesso de Macedo. Assim como os dois últimos, “Lucíola” também é um romance urbano. Como nas outras, esta ficção não se limita a contar uma história romântica. Ela apresenta uma estrutura pensada minuciosamente para conduzir o olhar do leitor a examinar mais detidamente alguns comportamentos que merecem análise e reflexão. Com tal ação, Alencar promove uma verdadeira crítica aos costumes de sua época.

Em “Lucíola”, Maria da Glória é exemplo de recato e pureza, até que as necessidades familiares a transformam na cortesã Lúcia, a prostituta mais procurada da casa noturna em que trabalha. Esse gesto de degradação moral tem uma função nobre: ajudar a família pobre vítima de febre amarela.

Ela era uma menina feliz de 14 anos e morava com os pais, quando, em 1850, sobreveio a terrível febre. Seus pais, os três irmãos, uma tia caíram de cama. Apenas ela ficou imune. No auge do desespero, resolveu pedir ajuda a um vizinho rico, Sr. Couto, que em troca de algumas moedas de ouro tirou-lhe a inocência. Nas palavras da jovem, "o dinheiro ganho com a minha vergonha salvou a vida de meu pai e trouxe-nos um raio de esperança."

Porém, seu pai sabendo da origem do dinheiro, e supondo ter a filha um amante, a expulsou de casa. Sozinha, sem ter aonde ir, foi acolhida por uma mulher, Jesuína, que, quinze dias depois, conduziu-a à prostituição, estipulando pela beleza de seu corpo um alto preço. O dinheiro, ela o usava para cuidar do que restava da família: "e eu tive o supremo alívio de comprar com a minha desgraça a vida de meus pais e de minha irmã".

Lúcia conhece Paulo, um jovem pernambucano, que chega no Rio de Janeiro em 1855. Ambos se apaixonam. A protagonista larga a vida noturna para viver esse amor. O pernambucano sente-se humilhado porque Lúcia abandonou todos os outros amantes para manter-se fiel somente a ele. Fraco, teme que a sociedade o imagine sustentado pela meretriz. Ela já não vibra como outrora, mesmo quando excitada por Paulo. É a doença que já se faz sentir. Paulo não entende essa frieza e por vezes se exaspera. Ela sofre calada, pois reconhece que "o amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe!". O grande sentimento que os unia, arrefece, dando lugar a uma amizade simplesmente.

O comportamento de Lúcia é cada vez mais sublime e heróico. Já não existe mais nada da antiga cortesã. E Paulo, por fim, entende essa nobreza de caráter e compreende o porquê das suas recusas após ouvir dela sua fatídica história. Ela lhe recusava o corpo porque o amava em espírito. E também porque já está doente. Paulo promete respeitá-la dali em diante.

Seguem-se dias tranqüilos. Lúcia muda-se para uma casinha modesta com sua irmã Ana. A tranqüilidade e felicidade são vistas por ela como algo impensável, já que nunca tivera: "isto não pode durar muito! É impossível!". É o pressentimento da morte. Lúcia tenta convencer Paulo a se casar com Ana, que já o ama também. Ele rejeita em nome do amor que sente por ela.

Lúcia aborta o filho que esperava de Paulo. Ela se recusa a tomar remédio para expelir o feto morto, dizendo "Sua mãe lhe servirá de túmulo". E já no leito de morte, recebe o juramento de Paulo prometendo-lhe cuidar de Ana como sua filha. E morre docemente nos braços de seu amado, indo amá-lo por toda a eternidade.

É assim que o romance urbano ou de costumes, a pretexto de contar história de amor, consolida o projeto literário romântico de divulgar valores morais e criar um espelho no qual o público burguês possa ver sua face refletida. Alencar escandalizou a sociedade de sua época com o romance, provocando reflexões e furor.

Sete faces do poema

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

Muitas vezes não nos questionamos e não refletimos acerca da própria vida a fim de encobrirmos falhas. Não meditar a respeito dos sonhos fracassados, as ações não realizadas, consiste em uma maneira de deixarmos a ferida com um ingüento que não cicatriza, mas que entorpece por um determinado tempo. Nossa pseudo-felicidade é possível por nossa comodidade.

A poesia drummondiana faz justamente o
contrário, deságua no questionamento dos mais variados obstáculos que aparecem na vida do ser humano. Através do “Poema de sete faces” Carlos Drummond de Andrade convida-nos a refletir a vida. Para Theodor Adorno “a determinação do pensamento não constitui uma reflexão exterior e estranha à arte (...) Para podermos ser instruídos esteticamente, sempre exigem também ser pensado, e o pensamento, uma vez posto em jogo pelo poema, não pode mais ser suspenso”.

Contudo, para que às vezes consigamos pensar a vida é necessário um bom entorpecente. Algo que minimize o impacto do sofrimento, tão pungente ao rememorarmos certos fatos de nossa existência. Na estrofe “Eu não devia te dizer/mas essa lua/mas esse conhaque/botam a gente comovido como o diabo”, Drummond se utiliza de dois “ópios”: a embriaguez e a ironia.

O humor desencantado, o sarcasmo, a ironia funcionam como uma espécie de mola que impulsiona a emoção reprimida. A comoção atribuída à lua e principalmente, ao conhaque, os quais fazem o eu-lírico desabafar seu pessimismo, sua angústia, sua solidão, é explicado por Pierre-Aimé Touchard no seguinte trecho: “...há algo de mais profundo, de mais ativo na embriaguez, nesse momento fugitivo da êxtase que precede o abandono total. O homem sem ter perdido o controle de si próprio, constata, ao contrário, uma espantosa hipertrofia de sua força e opõem, seja à paixão, seja aos sonhos”.

A embriaguez torna-se a chave que abre a algema de toda a repressão moral, material, sentimental. Constitui-se um modo de fuga aos arquétipos sociais vigentes. Torna-se uma saída, uma válvula de escape, um subterfúgio à realidade que se impõe e cerceia. Dioniso, deus do desregramento, da desmedida, cujo impacto é a concessão (mesmo que por um momento fugaz) à evasão da realidade. Dioniso é convocado pelo sujeito lírico a libertá-lo e revelar as suas “sete faces".

Já a realidade é ditada por Apolo. Este, o deus da compostura, do comedimento, rege a quarta estrofe contrastando com os versos anteriormente analisados. “O homem atrás do bigode/é sério, simples e forte./Quase não conversa./Tem poucos, raros amigos/o homem atrás dos óculos e do bigode”. A adjetivação “sério, simples e forte” atribui ao sujeito características moderadas. Demonstra uma outra face, predominantemente sensata e prudente. O bigode constituinte do sujeito lírico reforça a idéia de “homem sério”. O homem que “tem poucos, raros amigos” sugere certa escolha ao círculo de amizades, distinguindo-o mais uma vez pelo comedimento e sugerindo precaução aos que lhe rodeiam.”.

O bonde representa o movimento. Ele “passa cheio de pernas” e causa indagação ao coração do eu-lírico: “para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração”. O movimento significa ação e contrasta com os versos imediatamente posteriores, os quais proporcionam um caráter de estaticidade. Observemos a estrofe: “O bonde passa, cheio de pernas:/pernas brancas pretas amarelas./Para que tanta perna, meu Deus,/pergunta meu coração./Porém meus olhos/não perguntam nada”.

A perda do bonde (movimento) e da esperança constitui o “Princípio da Realidade” agindo impiedosamente. Sigmund Freud é quem teoriza sobre os dois princípios básicos que governam o aparelho mental: o Princípio do Prazer e o Princípio da Morte – ou da realidade. Eles constituem as pulsões vitais do ser humano. Alfredo Bosi, crítico literário, expõe: “na invenção do texto enfrentam-se pulsões vitais profundas que nomeamos com os termos aproximativos de desejo e medo, princípio do prazer e princípio da morte”. Ou seja, o texto incorpora e sofre as pulsões vitais humana e herda o embate, constante no indivíduo, entre o desejo e o cerceamento desses desejos.”.

A proposição de Freud é que o contínuo progresso civilizatório baseia-se na constante subjugação dos instintos humanos. É através da civilização - normas, regulamentos e sanções – que o indivíduo pauta-se quanto ao que pode ou não fazer. Herbert Marcuse interpreta a teoria freudiana da seguinte forma: “Para Freud, a livre gratificação das necessidades instintivas do homem é incompatível com a sociedade civilizada: renúncia e dilação na satisfação constituem pré-requisitos do progresso (...) A felicidade deve estar subordinada à disciplina do trabalho como ocupação integral, à disciplina da reprodução monogâmica, ao sistema estabelecido de lei e ordem”.

A religião – mesmo que não tenha o mesmo vigor que desfrutou na Idade Média – constitui-se um dos pilares da civilização. É ela quem muitas vezes convencionaliza padrões morais os quais se tornam grandes empecilhos rumo a uma realização plena. O pecado é colocado como o caminho para o inferno. Não ser virtuoso implica numa série de punições terrenas – as quais de certa forma purgam o indivíduo. A punição mais severa, porém, é passar a vida eterna sem estar na presença do divino.”.

É esse divino que abandona seu filho na hora da agonia descrito na seguinte passagem da Bíblia: “Eli, Eli, lammá sabactáni? (Deus, meu Deus, por que me abandonaste?). Na quinta estrofe do poema, Drummond usa de intertextualidade bíblica e expõe a seguir a sua limitação: “Meu Deus, por que me abandonaste/se sabia que eu não era Deus/se sabia que eu era fraco”.

O poeta questiona o abandono já que não é um Deus onipotente. A indagação, quase uma súplica, reflete a busca para o significado para a vida, e encontra uma resposta pessimista: “Mundo mundo vasto mundo,/se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não uma solução./Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração”.

Nesta estrofe, o transbordamento, a expansão do sujeito lírico é profunda. Vivendo tensões internas, entre os extremos das pulsões vitais, Prazer e Morte agem simultaneamente. Diante da vastidão do mundo, a fuga pela troca do nome formando rima, não solucionam a imensidão de desejos em seu coração. A questão do Raimundo remete-nos ao poema “José” também de Drummond. O José sem sobrenome, sem individualidade em função disto, se vê também sem alternativa. É a síntese do homem num beco sem saída. É o “Princípio da Realidade” limitando-o, suprimindo-o através das convenções do nominalismo.

O “anjo torto” anuncia seu nascimento chamando-o pelo nome e predestinando sua vida. A figura do anjo sempre associada à luz e bondade é quebrada quando se aponta “torto” e “vive na sombra”. O anjo já traça o caminho, sem deixar alternativa quanto ao uso do livre arbítrio. Vejamos a primeira estrofe: “Quando nasci, um anjo torto/desses que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida”.”.

"Carlos” fora destinado a ser “o mais ‘gauche’ dos ‘gauche’ ” por seu “anjo torto”. O eu-lírico vive insatisfeito, desesperado, pois se sente desajustado, desajeitado neste “Mundo mundo vasto mundo”. É um mundo cuja “A tarde talvez fosse azul/não houvesse tantos desejos”. O azul é o ideal da espiritualidade, nega a matéria, choca-se com os desejos que anseiam por ela. A tarde talvez fosse transcendental se o homem não desejasse tanto... e os empecilhos para uma realização plena são muitos. O mundo com valores que reprimem e fazem o sujeito lírico sentir-se um “Eu todo Retorcido”.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) vive as tensões do mundo pós-guerra (a primeira), dos regimes totalitários (Nazismo, fascismo, a ditadura Vargas) e vivencia na alma a Segunda Guerra Mundial. A poesia neste momento, não só a drummondiana, é a expressão de um momento conturbado. A lírica drummondiana permite a evasão do mundo tão duramente real e civilizatório, alimenta a alma, preenche lacunas e supre necessidades tantas vezes reprimida, adiada, suspensa ou cancelada pela ação atroz do cotidiano, mas ela também conduz à reflexão. Vamos a ela!


“Longa jornada noite adentro”: o trágico em ser humano

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.


... o passado que o atormenta e o presente incompreendido são ingredientes que expressam os desencontros existenciais de uma humana ruína, um vidro embaçado chamado memória, uma angústia hodierna e sempre latente


Um de nossos maiores poetas nacionais, Carlos Drummond de Andrade, na quinta estrofe do “Poema de sete faces” usa de intertextualidade bíblica e expõe a limitação do eu-lírico, o sentimento de abandono, a indagação estendida a todos os homens: “Meu Deus, por que me abandonaste / se sabia que eu não era Deus / se sabia que eu era um fraco”.

Longe de ser temática exclusiva de poetas, os sentimentos de abandono e fraqueza podem não vir exclusivamente de um Deus, mas daqueles que nos geraram biologicamente ou daqueles a quem chamamos de filho. E quando este abandono e essa fraqueza não é meramente física, mas essencialmente do âmago? E quando a orfandade subsiste mesmo em presença dos pais? A fraqueza de espírito pode ser hereditária? Como traduzir as agruras de uma vida de “presentes-ausências”? A culpa, se é que existe, deve ser acusada a quem: pai, mãe, filhos?

Eugene Gladstone O’Neill parece fazer sua busca por tais respostas dentro da ficção. Esta é um dentre os vários discursos circundantes na sociedade pelos quais elaboramos nossas diversas versões acerca da realidade. Considerado um dos maiores dramaturgos dos Estados Unidos, ganhador do Nobel de Literatura e de quatro prêmios Pulitzer – o mais nobre da literatura estadunidense -, O´Neill rememora fragmentos do passado a procura dos estilhaços angustiantes das suas relações familiares em um texto que conta um “dia-símbolo” na vida dos Tyrone pai - James, mãe – Mary, e os filhos James Júnior e Edmund, na verdade, James O’Neill, Ella Quinlan, James Junior e Eugene O’Neill.

Símbolo porque ao longo da peça mostra-se que a situação trágica exposta em menos de 24 horas na obra, retrata as mesmas peripécias que todos daquela família vivenciaram muitas outras vezes em seu cotidiano. Símbolo, também, porque a obra se configura na mesma linha mestra que O’Neill produzira suas outras peças, abarcando a “rudeza de seus personagens, na devassa que ele fazia de seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Desde o início, O’Neill permeou suas obras de uma ironia trágica. Quase sempre, homens alimentavam-se de sonhos que não conseguiam realizar, pois os caminhos escolhidos conduziam ao fracasso”, conforme a tradutora da peça, Helena Pessoa.

O trajeto que conduz à frustração não será diferente em sua obra-prima de cunho autobiográfico: pai, mãe e filhos objetivam mudar seus destinos projetando o futuro distante daquilo que foram no passado. Porém, as relações familiares turvas e conflituosas, a cada dia ressaltam a máxima de Eugene, “o único sucesso está no fracasso”, principalmente em sua “Longa Jornada Noite Adentro”.

Esta peça de O’Neill transcende 1941, data em que fora resgatada das memórias o passado doloroso e angustiante, de eu conflituoso. A inquietude existencial leva o dramaturgo-personagem a transcorrer memórias incertas, impasses identitários, o exílio sentimental em busca de “aflições consoláveis”. O autor se funde e se confunde ao narrador; e a presença de imagens pretéritas em meio ao texto, a mescla entre a realidade e a ficção, o passado que o atormenta e o presente incompreendido são ingredientes que expressam os desencontros existenciais de uma humana ruína, um vidro embaçado chamado memória, uma angústia hodierna e sempre latente.

A dedicatória da peça remetida à esposa, Carlota, revela-nos a autobiografia de um homem que inverteu a lógica em sua “própria escrita da vida” e que em vez de divulgar fatos abonadores de conduta, façanhas extraordinárias e elogios de parentes, amigos, colegas e admiradores, retratam feridas de sua família envolta em névoa constante. Dedicada aos doze anos conjuntos ao lado de seu então porto-seguro, aquela que lhe deu ancoragem nesse mar revolto chamado vida, O’Neill despe-se de todo o rancor que poderia ter em relação a seus familiares para, a partir do retorno ao passado, fazer uma viagem de perdão as quatro personagens acometidas de tragicidade:

“Minha querida, entrego-lhe os originais desta obra de velho sofrimento, escrita com lágrimas e sangue. Dom este que parece tristemente inadequado num dia em que só se deveria comemorar a felicidade. Mas você compreenderá. Quero que seja ele uma homenagem ao seu amor e à sua ternura, que me restituíram a fé no amor, o que permitiu finalmente afrontar os meus mortos e escrever este drama... escrevê-lo com profunda piedade, compreensão e perdão para os quatro angustiados Tyrone. Esses doze anos, minha amada, foram uma jornada para a luz... para o Amor. Já conhece a minha gratidão! E o meu amor. GENE”

A “jornada para a luz” atribuída à esposa é o paradoxo do título e da trama que se urde em contínua opacidade. A casa de veraneio da família Tyrone é o cenário da “jornada do dia para dentro da noite” entre névoas diurnas e a penumbra noturna e do alvorecer. Esse embaçamento ininterrupto metaforiza as relações familiares de um lar difuso, transitório, inconstante, sem a claridade suficiente para um “olhar-sentimento” nítido, para uma agudeza aconchegante de luz que reflete o ser.

Lamartine Babo definiu a condição humana da seguinte forma: “limitado em sua natureza, mas infinito em suas aspirações, o homem é um deus tombado que tem saudades do céu”. Mas o que é esse “paraíso perdido” na fala de Babo? Por que a saudade do céu? Quando começamos a sentir necessidade de regresso ao aconchegante paraíso e constatamos que o perdemos?

Samuel Beckett, dramaturgo e teórico irlandês, ao expressar a ausência das noções de certo e errado segundo Marcel Proust, afirma que somos lançados no inferno do mundo como seres trágicos no dia em que nascemos. Nosso pecado está na essência, está na origem e não entre os acordos firmados na idade devir: “A tragédia não diz respeito à justiça dos homens. A tragédia é o relato de uma expiação, mas não a expiação insignificante de uma quebra codificada de um acordo local, redigidos por patifes para usufruto dos tolos. A figura trágica representa a expiação do pecado original, do pecado original e eterno, cometido por ele e por todos os seus socii malorum [companheiros de infortúnio], o pecado de ter nascido”.

A afirmação beckttiana corrobora com a temática da peça de O’Neill. Através dessa jornada emblemática de um dia desses “companheiros de infortúnio”, tomamos conhecimento do constante jogo de culpas, acusações e expiações em que todas as personagens se auto-punem e punem ao outro. É a tragédia compartilhada entre quatro heróis os quais expõem suas desgraças internas e externas – estas os alimentam com a certeza de que realmente são deuses tombados e seu paraíso está longe de ser restabelecido. A árdua tarefa reconhecida pelos heróis, destituídos de qualquer glória, é suportar os infernais dias de sofrimento em busca de expurgação mútua. O imenso “edifício de recordações” são revelados em “Longa Jornada Noite Adentro” de maneira trágica refratando vidas suspensas e dilaceradas pelo desespero, medo, arrependimento, angústia, fuga – sentimentos estes aliados ao amor, muitas vezes ausente, outras vezes no limite do ódio, larga e profundamente humanos.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Isolamento urbano

Geórgia Pereira, Acadêmica de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina - UEL.


Vivemos em “ilhas urbanas” regidas pela alta tecnologia. Esta, devido a sua inserção, interage com os grupos sociais e afeta as relações interpessoais, de forma que as pessoas podem até conversar mais, mas se vêem menos.

A massificação do dia-a-dia e a falta de habilidade para encontrarmos tempo de reunir os familiares e os amigos intensificam o surgimento do isolamento urbano.

Essa questão está presente num dos diálogos do filme “Crash – no Limite” (2004). O ator Don Cheadle como detetive Graham Waters discute tal problemática ao dizer que em grandes cidades como, Los Angeles, as pessoas se esbarram ao andar nas ruas com a intenção de aliviar a sensação de solidão e isolamento. Obras como o livro “Culturas Híbridas” (1998), de Nestor Garcia Canclini, também provocam questionamentos sobre esse tema: “As ruas tornaram-se saturadas de carros, de pessoas apressadas para cumprir obrigações profissionais ou para desfrutar uma diversão programada quase sempre conforme a renda econômica”.

Muitos, nas grandes cidades, restringem o dia-a-dia ao seu mundo fechado, “num infinito particular” que muitas vezes não deseja alterações. Não é novidade que viver no mundo on-line, de certa forma, favorece tal isolamento. Conectados 24 horas por dia, as pessoas podem comprar, vender, fazer transações bancárias, se comunicar, tudo via internet seduzidas pelas facilidades que ela oferece, sem sair de casa. A comunicação virtual configura um nível de interação diferente do que estamos acostumados gerando alterações nas relações pessoais, criando amigos e namoros cibernéticos, algo cada dia mais comum entre nós.

Perdeu-se a dimensão do que é privado e o que é publico numa sociedade que multiplica as formas de divulgar a vida, nos sites de relacionamento, como orkut, que detalham tudo sobre as pessoas, quando elas querem isso (o que ocorre na maioria das vezes), seja por foto, scraps ou pela descrição do perfil. Sem falar da existência dos blogs, contando acontecimentos e detalhes da vida, com centenas de fotos que ilustram a página. Para Canclini, “a mídia invade de tal forma as relações pessoais, e a cultura urbana de uma forma geral que fica fácil afirmar que ‘ participar’ é hoje relacionar-se com uma ‘democracia audiovisual’, na qual o real é produzido pelas imagens geradas na mídia”.

Certamente, essas formas de comunicação são resultados do avanço e do desenvolvimento das telecomunicações, das maneiras de se relacionar e se ligar à teia social. São frutos de uma sociedade voltada para o mundo on-line e que não há perspectivas de se desvencilhar dele, pelo menos num futuro próximo. O que se discute, no entanto, é como as pessoas correm o risco de perder a noção do que é particular num meio que incentiva cada vez mais o tornar-se público.

Canclini questiona, em determinados pontos da sua obra, a questão entre o compartilhado e o particular, e argumenta: “a urbanização predominante nas sociedades contemporâneas, se entrelaça com a serialização e o anonimato na produção com reestruturações da comunicação imaterial que modificam os vínculos entre o privado e o público”. O que era pra ser privado, sem querer se torna público, seja uma compra, um passeio, uma ida a locadora. As pessoas encontram-se tão isoladas nas suas casas, nos seus redutos casa-trabalho, que estão perdendo o convívio e todo e qualquer encontro serve de pretexto para saber um pouco da vida alheia, ou ainda, de certa forma tentar interagir com ela, pensar que você sabe e conhece fulano, apenas pelo fato de vê-lo saindo de casa com beltrano. Todas essas atitudes surgem em função da necessidade de interação que o ser humano tem, mesmo que ela não seja feita de forma tradicional, ou seja, pessoalmente.

Para quem gostou do assunto e deseja aprofundá-lo, fica a sugestão de leitura. O estudioso debate assuntos relacionados à cultura e sociedade da América Latina. A obra chama-se “Culturas Híbridas” e o autor Nestor Garcia Canclini.

“Ao vencedor, as batatas!” - Quincas Borba

Clarice Pessoa, graduada em Letras, professora da rede pública.


Como diz o próprio autor, Machado de Assis, "o livro anda devagar" e "o meu estilo" é "como os ébrios (bêbados), guinam à direita e à esquerda, andam e param...". E é mais ou menos assim que anda a narrativa de Quincas Borba.

O romance realista, de 1891, conta a vida de Rubião, um pacato professor de Barbacena, que se torna rico da noite para o dia ao receber uma herança deixada pelo filósofo Quincas Borba, criador de uma filosofia chamada Humanitismo. Rubião é nomeado herdeiro universal do filósofo sob a condição de cuidar de seu cachorro, Quincas Borba, com o mesmo nome do dono.

Rubião passa a viver no luxo da Corte do Rio de Janeiro, num ambiente a que não estava acostumado e que muito o deslumbra. Torna-se amigo de um casal, Cristiano Palha e Sofia. Ele se apaixona por Sofia. O amor era tão grande que Rubião foi obrigado a assumi-lo perante o objeto de desejo. Sofia recusa seu amor, mesmo tendo lhe dado esperanças tempos atrás, e conta o fato para Cristiano. Apesar de sua indignação, o capitalista continua a relacionar-se com Rubião, pois queria obter os restos da fortuna que ainda existia.

Palha faz uma proposta empolgante a Rubião: investir seu dinheiro na área de exportação. Empolgado com a esperança de multiplicar seu dinheiro, Rubião acaba caindo na armadilha do casal, que lhe dizem que outro negociador de "fora" os passou para trás e ficou com o dinheiro do investimento.

O amor de Sofia, não correspondido, aos poucos começa a despertar a loucura em Rubião. Já muito afetado pela doença, e de volta à sua cidade natal, relembra parte de uma explicação que lhe foi dada por Quincas Borba, e que habitou muito sua mente nos primeiros momentos quando soube que herdara toda fortuna do citado filósofo, diz: "Ao vencedor, as batatas".

Retoma-se, então, o Humanitismo. Que teoria é essa? É uma visão irônica das filosofias as quais pregam que a humanidade feita de uma só essência. A teoria dos Humanitas nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo aparece o pensamento pessimista e absurdo. O homem não aparece como um ser maravilhoso e perfeito, mas cheio de falsidades, em que um cão pode ser mais amigo e fiel do que o ser humano. A seguir, trechos do capítulo V ilustrando a relação de Quincas Borba, o filósofo, com seu cão Quincas Borba:
“— Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda parte, existe também no cão, e este pode ser assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano... O cão ouvindo, correu a cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:
— Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo!”

O homem, para o Humanitismo, não significa nada; é falso, instável e fraco. Podemos notar isto nas personagens machadianas. Na luta pela sobrevivência quem vence é o mais forte, e não quem tem mais caráter. No trecho abaixo, do capítulo VI, a explicação da teoria:
“— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e irá à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

Depois da morte de Quincas Borba, Rubião sente-se dono das batatas. É um vencedor. As batatas, para ele, representavam riqueza, posição social. Não sabia ele que, na realidade, representavam, simplesmente, meras batatas. Não tinham valor algum. Seriam, apenas, o veículo de sua destruição. E ele que até então não entendera a exposição do filósofo, passa a compreender a fórmula:
“— Ao vencedor, as batatas!
Tão simples! Tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e notou que até há pouco foi, por assim dizer, um exterminado, um bolha; mas que ora não, era um vencedor. Não havia dúvida; as batatas fizeram-se para a tribo que elimina a outra para transpor a montanha e ir às batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacável, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:
— Ao vencedor, as batatas!” (Cap. XVIII)

A loucura de Rubião o levou à morte e foi comparada à mesma que causou o falecimento de Quincas Borba. Louco e explorado por várias pessoas, principalmente Palha e Sofia, Rubião morre na miséria e assim se exemplifica a tese do humanitismo.

A dica para download das obras completas de Machado de Assis é o site da biblioteca virtual do estudante brasileiro: http://www.bibvirt.futuro.usp.br

A linha tênue entre História e Literatura em “O Mez da Grippe”

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

Entendendo que a história não recupera o real de um acontecimento passado, mas constrói um discurso sobre ele, e que este discurso é perpassado pela subjetividade daquele que o está compondo, esfacela-se a idéia de que a história é objetiva e totalizante. O recorte que se faz sobre determinado evento, as fontes utilizadas, a metodologia aplicada, os conceitos empregados, entre outros aspectos levados em conta na historiografia, explicita-se a parcialidade e a subjetividade quando da construção do discurso histórico, o que o aproxima de outras práticas discursivas.

Na condição de enunciado verbal (discurso), a história passa a ser um sistema autoconsciente de significação social tanto quanto a literatura. Nesta é possível encontrar “marcas do passado” capazes de refratar um dado contexto histórico de uma comunidade ou mesmo de uma sociedade. Abordado por diversos teóricos, o entrelaçamento entre as disciplinas encontra ressonância na teórica Sandra Pesavento a qual argumenta que a História e a Literatura “apresentam caminhos diversos, mas convergentes, na construção de uma identidade, uma vez que se apresentam como representações do mundo social ou como práticas discursivas significativas que atuam com métodos e fins diferentes”.

O cineasta, desenhista, jornalista e escritor Valêncio Xavier cria um enredo unindo diversos elementos na forma de texto-montagem mesclando as áreas de conhecimento histórico e literário. A obra “O Mez da Grippe”, com primeira edição em 1981 pela Fundação Cultural de Curitiba e reeditada pela Companhia das Letras em 1998, é construída como uma espécie de mosaico composto por elementos ficcionais e não ficcionais na forma de montagem textual.

O autor trabalha com fragmentos da realidade trazendo diversos ‘discursos alheios’ a partir de diferentes fontes: recortes de jornais, propagandas, poemas, canções, fotos, desenhos, documentos oficiais, relatos de sobreviventes. Com tal amplitude de recursos Xavier constrói um ‘discurso singular’ de fatos que se fixaram no imaginário local combinando informações de outrem no interior da obra, não extinguindo de todo a voz do autor, mas escamoteando-a, como faz, por exemplo, ao iniciar o livro com uma epígrafe lúgubre de Marquês de Sade, e que repercutirá em todo o livro como uma voz autoral e autoritária: “Vê-se um sepulcro cheio de cadáveres sobre os quais se podem observar todos os diferentes estados da dissolução, desde o instante da morte até a destruição total do indivíduo. Esta macabra execução é de cera, colorida com tanta naturalidade que a natureza não poderia ser, nem mais expressiva, nem mais verdadeira”.

A ambientação da obra é Curitiba, no Paraná, e o acontecimento histórico refratado é a gripe espanhola, que teve seu ponto culminante nesta cidade nos últimos três meses do ano de 1918. Junto a esse fato marcante e figurando fissura que também abala o cotidiano dos cidadãos curitibanos, o narrador de “O Mez da Grippe” descortina momentos da Primeira Guerra Mundial. Reelaborando os dois fatos o autor carnavaliza a História.

O termo carnavalização sugere, de chofre, a influência do carnaval na literatura e nas diferentes artes. O fenômeno do carnaval abrange, além de determinadas festividades associadas às comemorações sagradas, como o Corpus Christi, ocorridas na Idade Média e Renascimento, o período que antecede à Quaresma até hoje celebrado nas sociedades cristãs contemporâneas, e que se caracteriza pela suspensão temporária dos cerceamentos da vida cotidiana.

Para Bakhtin o carnaval constituía, concomitantemente, um conjunto de manifestações da cultura popular e um princípio de concepção ampla dessa cultura em termos de cosmovisão coerente e organizada. “Os ritos e os espetáculos carnavalescos ofereciam uma visão de mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferentes, deliberadamente não oficial, exterior à Igreja e ao Estado; pareciam ter se constituído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida. Essa segunda vida da cultura popular constrói-se como paródia da vida ordinária, como um mundo ao revés”.

Em “O Mez da Grippe” o cotidiano curitibano é apresentado através da carnavalização das diferentes vozes recortadas e coladas – uma refração do momento histórico caótico vivido pela população daquela cidade, inclusive a voz do narrador é escamoteada e se mostra através de fragmentos esparsos de um poema que se estende do início ao fim da obra. Ao deslocar o eixo e suas possibilidades de construção de sentidos para uma multiplicidade de autores e suas vozes, a instância autoral focaliza a imagem do híbrido no conjunto da obra.

As várias vozes, os vários registros e suas fontes textuais na ficção tornam atuais as reflexões de Barthes e Rifaterre, citados por Linda Hutcheon: "Na verdade, uma obra literária já não pode ser considerada original; se o fosse, não poderia ter sentido para seu leitor. É apenas como parte de discursos anteriores que qualquer texto obtém sentido e importância”. Tal afirmação projeta a aproximação entre os estudos da teoria literária e seus desdobramentos e a teoria da História, pois é decisiva para a abordagem de textos que problematizam os limites da linguagem, das tipologias textuais e a originalidade de obra, sobretudo no contexto considerado por alguns, e questionados por muitos, como pós-moderno.

Ao ler a obra de Valêncio Xavier, percebemos diferentes vozes presentes, os intertextos, a apropriação e a refiguração de textos. O autor recontextualiza-os, recombina-os, funde-os e o resultado é um novo texto. O processo de montagem e colagem utilizado decorre de um princípio estilístico o qual faz explodir o documento xaveriano com outras possibilidades estéticas.

O texto literário “O Mez da Grippe” questiona a rigidez do discurso factual da História, pois ao construir um mosaico interdiscursivo literário problematiza a prática discursiva histórica. Ao ficcionalizar um fato histórico, Xavier minimiza a dicotomia fato versus ficção uma vez que acentua o caráter textual/discursivo de ambos. A obra revela-se um misto de História, Literatura e teoria – uma das características apontadas como constitutiva da pós-modernidade - pois reflete seu processo constitutivo e tem o múltiplo como particularidades.

O livro pode ser lido como um mosaico carnavalesco composto de diferentes fragmentos, que reunidos, formam a imagem do conjunto. Embora possam transmitir idéias específicas, cada porção reclama o todo, como uma novela que tem sua progressão através da reunião das células dramáticas. Nesse mosaico, vozes se confrontam e reverberam num eco que reivindica a unidade.

Por meio de sua obra, Valêncio Xavier carnavaliza o conceito de História factual através do discurso literário e assim a história perde seu caráter supostamente dogmático e imparcial esfacelando-se em múltiplas perspectivas historiográficas e analíticas as quais iniciam em um mesmo ponto que a literatura – as práticas discursivas (e por vezes imagéticas) -, mas que seguem caminhos distintos.

Colcha de retalhos...

Claudiana Soerensen, Mestre em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em História do Brasil, Graduada em História e em Letras.

Simone de Beauvoir em “Todos os homens são mortais” poetisou:"tudo que se faz acaba se desfazendo, eu sei. E a partir da hora que se nasce, começa-se a morrer. Mas entre o nascimento e a morte há a vida". A vida percorrida é história, é ficção, é memória, é a síntese do paradoxo “existir”.

Em uma das obras poéticas mais importantes da Antiguidade romana, “Metamorfoses”, o poeta latino Ovídio traduziu sentimentos que experimentamos diante da mudança, da renovação e da repetição, do nascimento e da morte das coisas e dos seres humanos. Na parte final de sua obra, lemos: “Não há coisa alguma que persista em todo o Universo. Tudo flui, e tudo só apresenta uma imagem passageira. O próprio tempo passa com um movimento contínuo, como um rio... O que foi antes já não é, o que não tinha sido é, e todo instante é uma coisa nova.

Vês a noite, próxima do fim, caminhar para o dia, e à claridade do dia suceder a escuridão da noite... Não vês as estações do ano se sucederem, imitando as idades de nossa vida? Com efeito, a primavera, quando surge, é semelhante à criança nova... a planta nova, pouco vigorosa, rebenta em brotos e enche de esperança o agricultor. Tudo floresce. O fértil campo resplandece com o colorido das flores, mas ainda falta vigor às folhas. Entra, então, a quadra mais forte e vigorosa, o verão: é a robusta mocidade, fecunda e ardente.

Chega, por sua vez, o outono: passou o fervor da mocidade, é a quadra da maturidade, o meio-termo entre o jovem e o velho; as têmporas embranquecem. Vem, depois, o tristonho inverno: é o velho trôpego, cujos cabelos ou caíram como as folhas das árvores, ou, os que restaram, estão brancos como a neve dos caminhos. Também nossos corpos mudam sempre e sem descanso... E também a natureza não descansa e, renovadora, encontra outras formas nas formas das coisas. Nada morre no vasto mundo, mas tudo assume aspectos novos e variados... todos os seres têm sua origem noutros seres.

Existe uma ave a que os fenícios dão o nome de fênix. Não se alimenta de grãos ou ervas, mas das lágrimas do incenso e do suco da amônia. Quando completa cinco séculos de vida, constrói um ninho no alto de uma grande palmeira, feito de folhas de canela, do aromático nardo e da mirra avermelhada. Ali se acomoda e termina a vida entre perfumes. De suas cinzas, renasce uma pequena fênix, que viverá outros cinco séculos... Assim também é a natureza e tudo o que nela existe e persiste”.

Colcha de retalhos (1995), filme de Jocelyn Moorhouse, traz como protagonista uma jovem que prepara sua tese e, ao mesmo tempo, seu casamento. Vivendo na casa da avó, a garota ouve as histórias vividas por amigas da família, à medida que uma colcha de retalhos é tecida como presente de casamento. Os sentimentos são representados pelos retalhos e constroem novas perspectivas para a protagonista, a qual passa a questionar a própria vida e o conhecimento que tem acerca do mundo.

São esses retalhos – sentimentos amalgamados - que tecem nossa vida. Construímos nossa “história” reunindo pequenos “contos” vividos por nós e por outros. A vida acaba sendo uma imensa colcha de retalhos - fragmentos que formam um todo. Cada retalho acrescido na colcha da vida, revela novas facetas, desperta novos sentimentos, mostra novas veredas.

Carlos Drummond de Andrade, em genial e deliciosa inspiração, concedeu face a esse espaço de tempo que chamamos de ano: “Quem teve idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com um outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”.

As poéticas palavras de Raduan Nassar, em “Lavoura Arcaica”, juntam-se também a nossa colcha de retalhos: “[...] caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro”.

Estamos na última fatia de 2007. Há alguns prestes a desistir de tudo. Outros exaustos, mas prontos para renovar-se. Há aqueles, no liame entre o ótimo e o excelente. Experenciamos e experimentamos as doze fatias de forma múltipla. Nem sempre felizes, nem sempre tristes, nem sempre equilibrados. O importante é chegar ao final de cada ano e não cantar “Epitáfio” (“Queria ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer”...).

Não deixe o acaso guiar a vida, mas respeite o tempo (o seu e o do outro). A literatura, a história, a natureza, e, principalmente, o ser humano – que escrevem, traduzem, interpretam, relêem, acolhem e transformam esses compostos heterogêneos e temporais -, fundamentam o trajeto entre o “nascimento e a morte”: a vida.

Como afirmou Theodore Roosevelt: “É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os “pobres de espírito” que nem gozam muito, nem sofrem muito, porque vivem numa penumbra cinzenta que não conhece vitória, nem derrota”.